quinta-feira, 25 de maio de 2017

O futuro da democracia: onde estamos, para onde iremos

Nestes tempos de incerteza, em que a presidente Dilma Rousseff caiu com o impeachment, e surge a questão do que fazer com seu sucessor, Michel Temer, a democracia brasileira parece colocada sob teste. Depois do fim da ditadura militar, da volta ao estado de Direito, da redemocratização plena, da estabilidade econômica e da preocupação com o avanço da justiça social, nos vemos diante de uma enorme crise e de antigos fantasmas. O momento de tensão faz perguntar o que há de errado, se somos nós ou o sistema - especialmente a nossa Constituição Cidadã, ou  melhor, a nossa democracia. E qual a saída para essa cilada ampla, geral e irrestrita, que mistura política e economia.

A democracia brasileira parece não ter resolvido antigas dissensões e as mesmas forças que levaram aos choques no passado. Ao contrário, permitiu o crescimento da corrupção sistêmica, que quebrou o Estado e causa indignação. As dissensões sociais são ainda mais aciduladas numa era em que os meios virtuais colocam as diferenças humanas a céu aberto e em conflito diário.

O brasileiro médio se encontra sem dinheiro, sobrecarregado de impostos e obrigações e emparedado entre duas facções violentas e arbitrárias. De um lado, cresceu o PT, nos anos em que usou a máquina pública para sua máquina partidária, com seu projeto de poder que usa os meios democráticos somente quando estão a seu favor. De outro, estão as velhas oligarquias, que sempre desfrutaram da simbiose do capitalismo tupiniquim com o cofre público.

A origem do poder de ambas as facções é distinta. O PMDB está enraizado na máquina do poder há muito tempo, herdeiro da antiga aristocracia escravagista e selvagem do capitalismo primitivo brasileiro, que se servia das "Câmaras dos homens bons" para favorecer seus negócios. Utiliza a máquina pública para a perpetuação no poder, financiando empresas e campanhas políticas para continuar ocupando os estamentos do Estado, especialmente no legislativo. As velhas oligarquias assim se adaptaram à democracia na era contemporânea, e mantiveram seu status quo.

O PT é fruto de outro fenômeno, um pouco menos arcaico, mas também já antigo na história da democracia no Brasil. Sobretudo para o Executivo, o voto democrático permitiu a chegada ao poder de grupos que, mesmo minoritários na sociedade, podem momentaneamento eleger-se em postos chave por meio do dircurso populista e demagógico. Dão a impressão de que representam a maioria, e desejam governar para todos, especialmente os mais pobres, quando desejam na realidade implantar projetos políticos de uma minoria, quando não de um líder carismático: o demagogo clássico.

Ao chegar ao governo federal, por meio da eleição de Lula, e depois sua sucessora eleita, o novo poder (do PT) teve que compôr-se com o poder tradicional para governar. Esse acordo de exploração do Estado brasileiro, como uma aceleração metabólica de ambos, acabou resultando num desvio padrão de enormes proporções, com consequências desastrosas para o país.

O problema, porém, não está na democracia. Antes de ser julgada pela Justiça, a ação dos governantes deveria ter encontrado bloqueio preventivo na administração federal. É um problema da falta de controle do Estado sobre si mesmo, que existia desde os tempos do Brasil colônia, quando havia a figura do ouvidor-mor, que fiscalizava mesmo os ricos e todo-poderosos senhores de engenho, sob a égide da coroa portuguesa. Os partidos não podem dispôr do Estado como bem entenderem. Isso falta na legislação da administração federal, assim como sistemas eficazes de controle da corrupção, para evitá-la ou cortá-la no ato de sua instalação.

Resta a crise política. Ela, também, não é cria da nova democracia brasileira - ao contrário, é fruto do que veio ainda do passado, e que se leva provavelmente muito tempo para erradicar. Hoje, assistimos à disputa entre ambas as facções pelo binômio poder e dinheiro, desde que foi rompido o pacto entre PT e PMDB, com a derrubada de Dilma, que selava a repartição do butim. Não importa que seus elementos estejam sendo caçados pela Justiça. As bases do sistema não ruíram. As forças em combate ainda estão vivas.

O fato de políticos e empresários estarem indo para a cadeia mostra apenas que a democracia brasileira está funcionando, graças ao princípio republicano da independência dos poderes. E a Constituição prevê saídas mesmo para a crise em que esse combate nos deixou.

Os brasileiros emparedados intimamente gostariam de se livrar de gregos e troianos que hoje se enfrentam diretamente, como aconteceu ontem, na batalha campal da esplanada dos Ministérios, entre as forças sindicais ligadas ao PT, de um lado, e as Forças Armadas convocadas pelo presidente Temer, numa demonstração de força que pareceu tão desproporcional quanto o vandalismo praticado pelos supostos defensores da campanha de "diretas-já". Quem não está de um lado nem de outro gostaria apenas de ficar em paz, na via democrática e com um Estado voltado para o bem coletivo, e não projetos de perpetuação da espécie, à esquerda e à direita, capazes de chegar a esse grau de violência.

Esse embate, enquanto durar, colocará o Brasil fora do caminho do progresso, que, como mostra nossa história, depende essencialmente de estabilidade. Basta seguir o livrinho da Constituição e começar a fazer o que deixamos de fazer: priorizar as medidas de bom senso. 

No impedimento de Temer, hoje um presidente que não governa, desmoralizado pela gravação de suas conversas na calada da noite com um empresário réu e criminoso confesso, a regra democrática diz que haveria a escolha de um presidente-tampão, eleito pelo Congresso, até as próximas eleições. Os antagonistas já negociam uma saída pelo meio - alguém de centro para substituir Temer, neutramente, até a próxima eleição. O que é a saída constitucional e única ponte aceitável para o futuro próximo.

É preciso encontrar essa liderança de consenso, não para agradar os lados litigantes, e sim para recolocar o Estado na normalidade civil e democrática e devolver o Brasil aos brasileiros. Espera-se que, depois desse aprendizado, não que se mude o sistema democrático, e sim que amadureça o eleitor brasileiro. Espera-se que ele se conscientize de que não pode ser mais uma vez hipnotizado pelas promessas vãs daqueles que querem o poder para si mesmos, e não para servir.

A democracia brasileira é das mais avançadas do mundo, capaz de suportar até mesmo esta crise em que estamos. E espera-se com isso, da mesma forma que chegamos a outros avanços, erradicar com o tempo essas antigas forças que nos arrastam para o atraso e nos impedem de decolar para o futuro que todos vislumbramos.

quinta-feira, 4 de maio de 2017

Dez coisas




Dez coisas sobre minha pessoa, só uma não é verdade. (do Facebook)

1- Meu primeiro grande trabalho para me sustentar como estudante de jornalismo e ciencias sociais foi contracenar num comercial de eletrodoméstico fazendo o papel de namorado da Giulia Gam. Mas Giulia Gam desistiu e acabei filmando com a Sandra Annenberg.

2. Apareci na TV só de cueca num comercial da Zorba, mas fiquei mais famoso falando apenas a palavra "menta" num comercial de pasta de dentes, junto com o jogador Sócrates.

3. Meu primeiro trabalho como redator foi escrever uma carta explicando ao mercado publicitário que um agente de modelos não tinha fugido com dinheiro roubado.

4. Levei sete anos para escrever meu primeiro romance, fazendo perguntas por escrito a um velho surdo.

5. Como repórter, escrevi uma matéria sobre um homem que fazia chover que foi para a primeira página de um jornal de negócios.

6. Passei um mês colocando bilhetes por baixo da porta do apartamento de um cantor que queria entrevistar, porque ele não falava com ninguém e tinha uma metralhadora, mas não tinha telefone.

7. Abracei um tigre branco e tomei banho numa lagoa no meio de dezenas de jacarés.

8. Por ser jornalista, fui julgado num tribunal indígena, numa língua que não entendia, e escapei da pena de morte.

9. Entrevistei Eike Batista sob a mira de uma pistola.

10. Roberto Civita dizia que eu "como jornalista sou um grande contador de histórias".

Respostas:

8 - É verdadeira. Fiquei 4 dias na tribo kuikuro, no Xingu, para fazer um documentário, como pode testemunhar o amigo e autor da iniciativa James Lynch. Lá o dono da festa disse que não nos conhecia e fomos a julgamento na maloca do chefe Afukaká. Quando descobriram que eu era jornalista, senti o calor da caldeirinha. A gente não entendia nada do que diziam - os membros do tribunal falavam em caribe, a língua kuikuro. Mas a gritaria, os arcos retesados e os tacapes balançando ameaçadoramente ao nosso redor eram bastante eloquentes. Naquela época havia na reserva uma equipe de cinema francesa sequestrada pelos kalapalo, o que não dava margem para otimismo. O terceiro cacique, Jacalo, nos livrou do enrosco. No final, virei uma espécie de sábio para eles - "tales" em caribe quer dizer "seiva da árvore", ou aquilo que dá a vida. Então eu já vinha com um nome anímico, muito importante para o índio. Pudemos assistir o quarup até o final, mas proibidos de filmar ou fotografar, razão pela qual existem poucos registros da viagem. Foi uma das experiências mais fortes da minha vida. Fomos embora de teco-teco, o que por si parece temerário, mas naquelas condições foi um verdadeiro alívio. Aquela experiência foi muito util para escrever A Conquista do Brasil. Entendo perfeitamente o sufoco que José de Anchieta passou como refém em Iperoig.

9 - Verdadeira. Quando eu era editor da VIP, ainda um suplemento de Exame, escrevi uma capa sobre Eike. Na época ele não falava com a imprensa. Mas, por vaidade, queria contar a história de como se tornara campeão de corrida de superlancha nos Estados Unidos, com um barco milionário, que, depois de se irritar perdendo muito, construíra para jogar spray em todos os adversários. Batizou-o de Spirit of The Amazon, homenagem à forma como ele começara sua fortuna, comprando ouro dos garimpeiros para revendê-lo. Era um negócio muito arriscado e ele passara a andar armado. Eike me recebeu no seu escritório no Flamengo. Quando saí do elevador, vi o próprio Eike, sentado à mesa de trabalho, atrás de duas paredes de vidro blindado. Tinha uma pistola sobre a mesa, virada para a porta - e seu interlocutor. Quando sentei, perguntei para que servia a arma. Ele abriu a gaveta e me mostrou grande quantidade de munição. "É por garantia", ele disse. "Vejo quem entra daqui mesmo, sentado." E manteve a pistola virada para mim sobre a mesa, durante toda a entrevista. Num outro dia, fizemos as fotos em outra de suas lanchas de corrida, na Marina da Glória. Eike ainda navegava no início de seu casamento com Luma de Oliveira, que veio receber a mim e o fotógrafo Sérgio Zallis na porta do iate clube com o filho Thor no colo - ele era ainda um bebê. Zallis e eu navegamos na água suja da baía num iate de um amigo de Eike, no alto da ponte de comando, para fotografá-lo dentro da lancha de corrida de cima para baixo. Foi a primeira entrevista de Eike na imprensa - e a única por mais de uma década.

6 - Verdadeira. O cantor é o Geraldo Vandré. A reportagem que escrevi em VIP foi referência para as duas biografias dele que saíram ano passado. Nenhum dos biógrafos conseguiu entrevistá-lo. Ele não tinha telefone. E sim, tinha uma metralhadora em casa, modelo soviético. Depois de um mês escrevendo a ele em bilhetes por baixo da porta, ele me telefonou. De um orelhão.

5 - A número 5 não é exatamente mentira, apenas contém um erro de informação. Não se tratava de um homem que fazia chover, mas que tirava magicamente água das profundezas da terra. Eu trabalhava na seção de nacional, na Gazeta Mercantil, e cobria uma seca prolongada em São Paulo que começava a afetar os negócios. Todo dia, tinha de escrever uma matéria sobre a seca. Depois de um mês, já não sabia o que fazer: entrevistara metereologistas, fizera uma reportagem sobre um teco-teco vindo do Nordeste que bombardeava nuvens...Então propus uma matéria sobre radiestesistas, que acham água debaixo da terra com uma reles varinha de salgueiro. Fui a São Caetano e entrevistei um deles, Nikolaus Frank. O outro chamava-se Herbert Radler (não tem explicação, mas os mestres da radiestesia eram húngaros). Com Nikolaus segurando uma haste e eu a outra, fiz o teste da varinha na cozinha de sua casa, onde ele dizia haver um "veio d'água". Entortava!. Entrevistei geólogos, que diziam não haver base científica para aquilo, porque a vara de salgueiro não é condutora de eletricidade - e Frank afirmava que era justamente a descarga elétrica que os deixava com as mãos entortadas e de nervos saltados. Acrescentavam que não existiam "veios d'água" debaixo da terra. O jornalista Alexandre Gambirasio, então secretário de redação, deu bola preta para a matéria. Disse que nada tinha a ver com um jornal de economia. Meio enfezado, voltei a campo. Aí descobri que empresas de alta tecnologia, em desespero, estavam contratando o homem da varinha para furar poços em suas fábricas, no meio da seca. Aí Alexandre não apenas deixou a matéria ser publicada como a colocou na primeira página do jornal. O título: "Phillips recorre ao homem da varinha".