domingo, 23 de abril de 2017

A melhor sentença para Lula seria a das urnas

Acabo de assistir A Queda, filme que conta as últimas horas de vida de Adolph Hitler. Diante da inevitável queda, ele decide se matar. Sabe que vai morrer de qualquer forma. Hitler não podia ser preso. Uma vez preso, continuaria sendo um perigoso adversário, uma liderança ativa para seus fanáticos seguidores. O mesmo vale para Bin Laden. Os americanos não queriam prendê-lo. Atrás das grades, vivo, Bin Laden continuaria sendo Bin Laden. Então, na incursão em que poderiam tê-lo preso, eles o mataram.

Em ambas as hipóteses, o fanatismo não acabou. Para seus seguidores, Hitler e Bin Laden viraram mártires.

Lembro desses casos para falar de Lula. O ex-presidente, abalroado por acusações de todos os lados, encontra-se cercado e aparentemente sem saída como Hitler. Levado a julgamento, seu longo processo será como o calvário de um mártir. Se for inocentado, bom para ele. Se for para a cadeia, melhor ainda para ele. Será um símbolo vivo para os fanáticos que arregimentou ao longo da vida.

Lula acha que há uma saída: não ser preso, não morrer e safar-se. Quer se redimir indo para as urnas e com isso escapar da prisão e limpar seu nome. Não é o eleitor que julga o crime, e sim o Estado. Mas a força de um preso fora da cadeia conta. Na prisão, ele seria ainda um catalisador das forças que o apoiaram. Um mártir vivo, a versão tupiniquim de Nelson Mandela, o ícone da luta contra o apartheid, que saiu de três décadas na prisão para se tornar presidente da África do Sul.

Lula não é Hitler, nem Bin Laden, muito menos Mandela, que era um homem íntegro, mas é uma liderança inegável. Teve o dom de elevar as esperanças dos brasileiros ao auge e derrubá-las lá do alto. Joga suas fichas ainda no seu carisma. Por isso, não é também Getúlio Vargas, que se matou, diante de denúncias, para se tornar vítima e, nas suas palavras, "deixar a vida para entrar na história". Sem réu, perderam sentido as acusações. Getúlio congelou a imagem do líder demagogo popular, escapando à criminoso. mas não viveu para ver o seu triunfo. Apenas o projetou.

Lula ainda aposta no mártir vivo, Mas já não tem a força que acha que tem. Para aqueles que gostariam de erradicá-lo da política brasileira, seria melhor que ele fosse de fato candidato na próxima eleição. E sofresse uma derrota retumbante. A resposta das urnas, diante da crise em que estamos, da qual ele foi o grande artífice, junto com o PMDB, seria então a sua morte. O símbolo só pode morrer no mesmo lugar de onde surgiu. Preso, ou morto, sem esforço ele renasce.

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Anita na Record

Era um hoje já distante 1998 quando vi Gore Vidal em Ravello, na Itália. Estava na fila da agência bancária, a única que havia no velho paese amalfitano. Claro que não fui perturbá-lo. Fiquei olhando, de longe, em silêncio: o escritor ao vivo.

Eu, que ainda labutava para publicar meu primeiro romance, e mal imaginava como era viver de escrever sem precisar de um  emprego, sonhava. Ainda mais com trabalhar em casa, num lugar como aqueles: a magnífica cidade dos jardins suspensos sobre o mar, onde Vidal passava metade do ano.

Não eram os livros. Era a vida do escritor, como só podia ser.

Vidal escreveu um de meus romances favoritos; Criação.  No meio da bacia das almas que virou o mundo, talvez hoje pouca gente o conheça. Mas ele pertenceu a uma grande geração de romancistas que eram, também, grandes vendedores de livros - e verdadeiros astros da literatura e das artes. Como Gabriel Garcia Márquez (Cem Anos de Solidão). James Michener (A Fonte de Israel).

Havia entre eles alguns autores "populares", como Irving Wallace, mestre da introdução dos leitores da minha geração em assuntos eróticos, e Sidney Sheldon, que gostava de mostrar a podridão humana por trás do sucesso e da fama. Comparados com os escritores populares de hoje, eram alta literatura.

Todos tinham duas coisas em comum. Primeiro, eram grandes autores, de obras com qualidade literária e que ao mesmo tempo conseguiam ser lidos por milhões de leitores em todo o mundo, prova de que uma coisa não exclui a outra. O segundo ponto em comum: no Brasil, a maioria deles era publicada pela editora Record. Por isso, não posso deixar de rever essa galeria na minha frente, ao receber meu novo romance, Anita, com aquele mesmo selinho mágico dos autores que sempre admirei.

Há alguns anos, assisti na Flip uma entrevista ao vivo com a escritora peruana de ascendência chilena Isabel Allende - outro exemplo de sucesso de crítica e público, igualmente publicada no Brasil pela Record. Mulher admirável, dotada de ironia fina e simpatia rara, mostrava-se em pessoa como nos livros: uma sutil observadora da alma humana. Perguntaram a ela se, depois de anos a fio na mesma casa, ela trocaria de editora. Allende respondeu que a Record acreditou nela quando ainda "não era ninguém" - e seguiu acreditando. "Por quê mudaria agora?", disse.

Uma das coisas essenciais para um autor é a empatia com o editor. O mais importante, para um autor, é ter um editor que gosta do que ele faz, que acredita nele incondicionalmente, e segue com ele em sua trajetória no longo curso. Num trabalho tão solitário, com a exceção do agente, o editor é seu único interlocutor. O prazer de um editor ao fazer algo com entusiasmo é a semente das grandes parcerias e dos grandes sucessos. (Para quem não viu, recomendo vivamente o filme Gênio, com Colin Firth, exatamente sobre essa relação).

Não por acaso a Record é a maior editora do Brasil. Eles simplesmente gostam do que fazem e com quem fazem. Parece simples. E é simples. Dessa simplicidade vem tudo.

Eu há muito tempo vivo do que escrevo, nas cada vez mais longas fases da vida em que tenho passado sem emprego. Porém, ao ver Anita, um punhado de papel que sopeso nas mãos, me sinto novamente o rapazola deslumbrado que encontrou Gore Vidal na fila do banco, naquela tarde inesquecível.

Aquele jovem em viagem pela costa amalfitana ainda mora dentro de mim e me lembra que escrever não é publicar livros: é uma forma de viver. Mesmo que às vezes a um alto custo, agradeço por poder viver sem abandonar meus sonhos.