domingo, 5 de março de 2017

Desenhando entre vinhedos


Cleci hoje corre em meio aos vinhatais de Fienil del Monte, a poucos quilômetros de Soave, onde nos hospedamos em uma casa em meio aos vinhatais. Fomos tomar café na vila pela qual passamos antes de carro, na estrada. Achamos aberto somente o bar de uma senhora afônica, chamado Deja Vu (“aqui a gente nunca entra pela primeira vez”, eu brinco).

Saímos do bar – eu na frente. Ela para por um instante, olha para mim e diz: “Você está muito style”. Poucas vezes ela me vê de casaco de couro, chapéu e cachecol. Faço cara de desdém, como sempre. E ela, com traje de ginástica, propõe ir correndo na frente para buscar o carro.

Ando sozinho pela estrada e entro na alameda de cascalhos, entre vinhedos, no vale de Ilasi, com os alpes nevados ao fundo. As parreiras estão secas e formam uma cama de galhos que sobe as encostas, pontilhadas por casas de pedra e paredes pintadas de terracota, entre janelas de madeira verde.

É a Itália de meu bisavô, que arava a terra perto daqui. (“Meu pai dizia que a terra, na Itália, é mais fácil do que no Brasil”, contava meu avô). Terra trabalhada por séculos a fio, onde piso, como se os Fiorini nunca tivessem saído daqui.

Caminho ouvindo meus passos no cascalho, em meio ao silêncio circundante. Ao lado da alameda, um ribeirão corre sobre pedras. Cruzo uma ponte sobre um rio seco, que parece levar a um mar de granito, e penso que, assim, nós (meu bisavô, o avô, minha mãe e eu) somos o rio, na parábola do tempo, de Herman Hesse, em Sidarta: a água passa, mas o rio é sempre o mesmo. Aqui estou eu, como meus antepassados, parte da correnteza que se confunde com o tempo.

Vamos ao castelo de Soave, habitado entre os anos 1000 e 1300, conquistado sucessivamente por suevos e italianos de #Veneza e #Verona. Propriedade de uma família de mecenas desde o século XIX, hoje encima galhardamente o pequeno burgo murado. Tomamos café no fim da tarde entre jovens de preto, no único bar aberto. Soave é uma cidade de turismo de fim de semana e há pouca gente e poucas lojas abertas neste final de inverno.

Vamos a Verona. Visitamos a arena romana, quando a luz da tarde já cai, pintando o céu de rosa marmóreo: homens já trabalhavam na construção do palco para as óperas, na temporada de verão.  Cruzamos a velha ponte românica sobre o Adige, visitamos a casa de Julieta, na verdade de um "Capelleti" que associaram aos Capuletto", com uma sacada iluminada sobre um pátio, como no drama de Shakespeare, e uma estátua em bronze da célebre personagem da ficção. As paredes do túnel de entrada estão cobertas de mensagens de amor. Faz frio mas ali as paredes antigas e o vaivém de gente são calorosos.

De volta a Soave, tiramos o dia seguinte para caminhar. Tomamos café ao lado da casa, diante dos vinhedos; ali eu sento numa cadeira esconjuntada para desenhar o cenário com o caderno e o pedaço de carvão que Cleci me deu. Subimos a estrada de Fienil del Monte, passamos por uma bucólica igreja, com a vista para o vale. No alto do morro, duas horas de boa caminhada, um velho castelo abandonado, sombra de outros tempos, batido pelo vento e o sol límpido da tarde, é o ponto final: dali se vê todo o Vêneto, um lago lá embaixo, o sol.

Arriscamos na volta cortar a estrada sinuosa, nos perdemos, voltamos atrás. Fazemos nosso piquenique ao lado da igreja, com vista para o vale: queijo e a garrafa de vinho local que Cleci toma no gargalo, entre risos, sob fachos da luz solar. Somos riso e despreocupação: não penso em outros tempos, outros dias, outras felicidades, trabalhos feitos ou por fazer. Não há passado, nem futuro, só o presente, e a mão de minha mulher, que volta e meia pelo caminho da descida encontra a minha.

Último dia em Soave. Conheço Claudio, dono do vinhedo onde nos hospedamos. Um homem de quase sessenta anos, cabelos brancos, um pouco compridos, que lhe dão o ar de uma juventude gasta. Nós o víamos ao longe, todos os dias, com um alicate de jardim na mão, podando os vinhedos. 

Pergunto como é a vida ali. A casa de Claudio é de 1800; explica que faz o que fazia seu pai. mas pode ser a última geração da família a cultivar a terra. O filho, Mattheo, estuda Direito em Verona, quer ser advogado. Ele balança a cabeça, meio frustrado. "Para que servem advogados?", ironiza. "Alguém tem de beber o vinho!", respondo. "É verdade!", ele concorda, e ri.

Nos seus 55 mil metros quadrados plantados, Claudio explica que todo setembro vende suas uvas à cooperativa: valpolicella, 12 euros o quilo, três vezes mais que soave, a uva autóctone do vale. Recebe o dinheiro dividido em cinco vezes por ano. "Dá para viver, sem luxo", diz ele.

Tem um restaurante que funciona em fins de semana, onde deixou um brasileiro cozinhando em seu lugar. "Já tenho de cuidar sozinho do vinhedo, é muito trabalho", diz. "É já  estou um pouco velho." "Mas cozinhar é uma das poucas coisas que os velhos fazem melhor", eu digo. Ele se diverte comigo.

Para ganhar um pouco mais, agora Claudio aluga 5 apartamentos na sua torre de pedra pelo airbnb. Quem cuida disso é o filho mais novo, Mattheo, que estuda Direito em Verona. Abana a cabeça. " ara que serve isso?" , lamenta, como se fosse o último a pertencer àquela terra. "Advogados são importantes", digo. "São eles que bebem o vinho!"

Claudio ri de novo. Me leva ao fundo do galpão e entrega duas garrafas de tinto sem rótulo. #Valpolicella da casa, pequena produção que ele mantém para consumo próprio.  Pergunto quanto é. "Regalo", diz ele, e sorri.

*
Perspicaz como sempre, depois de duas semanas de viagem Cleci observa que eu mantenho a mala arrumada, mesmo sabendo que ficaremos alguns dias. Ela se estabelece, se espalha; eu estou sempre pronto para a partida.

Só por isso, hoje deixei os sapatos e as meias jogados de qualquer jeito. Sem dúvida, este é um dos poucos lugares do mundo onde eu realmente gostaria de ficar para sempre.



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