quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Dilma e Collor: o que leva ao impeachment de um presidente

Desde que a democracia foi plenamente reinstaurada no Brasil, em 1991, com a eleição para presidente de Fernando Collor, já temos dois presidentes que sofreram o processo de impeachment: o próprio Collor, que renunciou antes do impedimento, para não perder seus direitos políticos, e agora Dilma Rousseff. Muita coisa para uma jovem democracia? Há algo de errado com as instituições?

O discurso de defesa de Dilma no Senado, dentro do processo que ela resolveu levar às últimas consequências, mesmo sabedo do resultado, mostrou o que há de comum entre ela e Collor, capaz de levar um presidente ao impeachment. No seu arrazoado, Dilma jogou a conta pela crise brasileira no quadro internacional - que não mudou desde o tempo em que ela e seu partido gabavam-se de não interferir no país. 

Na sua própria conta, e do PT, nada. Para ela, a corrupção que assolou sua gestão é uma distante paisagem. A administração ruinosa que acabou com os ganhos alardeados por seu partido, também. Em vez de um mea culpa, ou um plano qualquer, desfilou os dois atributos que marcaram sua gestão: a arrogância e o divórcio com a realidade.

Foi o mesmo que aconteceu com Collor. Propelido à presidência num grande movimento cívico, num país inebriado com a volta à democracia, Collor entrou no governo a cavaleiro de um imenso apoio popular. A sensação de era de que podia fazer qualquer coisa. E Collor fez: sequestrou o dinheiro dos cidadãos, em nome de debelar a inflação galopante, herdada de José Sarney. Mais, deixou rolar a corrupção, em negociatas nas quais aparecia somente um velho testa de ferro, Paulo César Farias, que já lhe prestara o mesmo serviço nos seus tempos de governador, em Alagoas.

O delírio do poder, que dá a impressão a um presidente de que pode fazer tudo, sempre leva ao desastre. Assim como Dilma, Collor jamais foi ao Congresso pedir apoio para seus projetos. Canetava decretos como um imperador. Quando a crise econômica sobreveio, graças à ruinosa gestão da economia, os podres do de seu governo vieram à tona. Ambos os fatores, a crise econômica e a corrupção, que não andam juntas por acaso, se uniram para o Congresso, com enorme apoio popular nas ruas, defenestrá-lo.

O mesmo aconteceu com Dilma. O apoio popular obtido com o modelo demagógico do PT deu, primeiro a Lula, e depois à própria Dilma, a falsa ideia de que podiam fazer o que quisessem, até as raias do absurdo. As estatais foram espoliadas. Na sua sanha de "distribuir renda", levaram muito além da conta sua política populista de dar dinheiro aos mais pobres, sem pensar no crescimento exponencial da dívida pública, que levou o Estado praticamente à falência, E ainda estenderam suas benessses a governos ideologicamente alinhados - como a Bolívia e a Venezuela.

Ao transformar o Estado no motor do crescimento da economia, e quebrar o motor, Dilma subiu ao cadafalso. É extraordinário verificar que a primeira vez em que entrou no Congresso em seis anos foi para o julgamento do impeachment. Mostrou que não conhecia os limites de um presidente: seu discurso imperial, onde não há espaço para encarar os próprios erros e a realidade, foi coerente somente com a arrogância de um partido para o qual os fins justificam os meios, e, se a lei se interpuser no caminho, errada está a lei - "é golpe".

O problema não são as instituições, ou a democracia brasileira, ou a Justiça. São essas instituições que vem garantindo ao Brasil conter os delírios de poder daqueles que, eleitos pelo povo, em nome dele procuram exercer um poder que não possuem. Pois mesmo um presidente eleito legitimamente pelo povo tem limites. Um deles, o que estabelece a necessidade de diálogo com o Parlamento, controlador da outra casa, assim como o Judiciário.

O Brasil não está assistindo a um "golpe", o bordão que Dilma cansa de repetir, para desautorizar o processo que a tira de seu trono imaginário. O Brasil está, isto sim, se protegendo de um golpe de Estado, em que um partido e seus representantes, a começar de Lula, podem tudo - de desviar dinheiro público em proveito próprio  a impôr qualquer política sem passar pelo Congresso ou mesmo contra a lei. As instituições estão, portanto, em funcionamento.

Michel Temer e o PMDB, que assumem o governo com a saída de Dilma, têm uma diferença em relação ao PT e por isso são mais tolerados. Estão enrolados tanto quanto o Lula e o PT nas falcatruas que colaboraram para levar o país à bancarrota. Porém, mostram que estão um pouco mais perto da realidade: reconhecem a necessidade de fazer um ajsute, para estancar a inflação e o desemprego galopantes. Entre um governante corrompido e alienado no poder e outro apenas corrompido, a segunda opção parece mais aceitável, sobretudo por ser provisória.

O delírio do poder sempre acaba entrando em conflito com a realidade. E a realidade sempre vence. Os membros do PT, que há muito já enfrentam problemas com a Justiça, seguem no caminho da punição pelos termos da lei, o seu choque de realidade. Lula, já indiciado, está no mesmo caminho. Eduardo Cunha também.

O Brasil, com sua democracia, se mostra capaz de regular desmandos. Conta com o movimento nas ruas, que já expressou de sobejo seu repúdio a Dilma, com a Justiça e o Congresso, mesmo contaminado pela farta distribuição de dinheiro com o qual o PT procurou comprar sua boa vontade ao longo dos últimos doze anos. Espera que o povo brasileiro continue a fazer sua parte, depois de mais um banho de realidade que toma ele próprio, ao confirmar que não adianta acreditar em mágicas políticas - a conta acaba chegando, e desta vez será muito alta.








segunda-feira, 22 de agosto de 2016

O saldo da festa é a saudade do futuro

Como o palhaço de circo, o Brasil lava a cara depois do espetáculo

Medalhista olímpico, Stefan Henze, de 35 anos, técnico de canoagem na delegação alemã, morreu durante as Olimpíadas do Rio de Janeiro dentro de um táxi que bateu em um poste. O taxista fugiu e, uma semana depois, ainda continua desaparecido. Culpa do Rio de Janeiro? Mero acidente? Destino?

Não importa. A Olimpíada brasileira teve uma porção de notas desagradáveis: o superfaturamento das obras, a não concretização de várias metas olímpicas, em especial o saneamento da água, que breve voltará a ficar como antes, a finalização das obras de infra-estrutura, a mudança no quadro da segurança pública.

Para complicar, o país se encontra na mais grave crise econômica desde os idos da falida dittadura militar, o que transmitiu ao mundo a imagem de um país na miséria, gastando o dinheiro que não tem para receber os ricos na sua casa.

Porém, não importa. O espetáculo foi bonito: nas festas de abertura e encerramento, nos momentos esportivos que passaram para a história. O fulgurante fim de carreira de dois dos maiores, se não os maiores, astros do esporte olímpico, recordistas em desempenho e em premiações: Michael Phelps e Usain Bolt. O brilho de uma estrela da ginástica,com quatro medalhas de ouro: Simone Biles. O primeiro ouro olímpico do futebol brasileiro, levantado do descrédito da própria Nação. E o esforço individual de tanta gente com histórias cativantes e inspiradoras, na maior confraternização entre Nações da Terra.

O saldo da festa não é a saudade destas duas semanas, e sim a saudade do futuro: aquilo que poderíamos ser e realizar, se tivéssemos feito as coisas direito, mas não seremos ou fafemos. Não nas Olimpíadas, e sim neste país. Está provado que o brasileiro é capaz de grandes realizações, mas só apresenta sua melhor face quando exposto aos olhos do mundo, para agradar o estrangeiro, mostrar uma cara que não tem. Com a saída dos visitantes, voltamos a ser apenas nós mesmos, como o palhaço que lava a cara depois do espetáculo.

Dentro de casa, olhando no espelho, o Brasil é aquele outro, o do motorista que foge do acidente de trânsito, do dirigente que superfatura a obra, do torcedor que vaia o adversário na entrega de medalha, como aconteceu com o francês Lavillanie, prata no salto com vara.

Um país que não vai adiante, atolado na corrupção cotidiana, cujos tentáculos formam uma malha paralisante, que perpetua a roubalheira, a inércia e a desesperança, inutilizando o trabalho de todos aqueles que procuram fazer algo construtivo.

Sim, o Brasil é bom  de festa, com o samba, suas mulatas, a simpatia esquizofrênica de seu povo, que é tão fácil com o visitante, tão duro consigo mesmo, e tão leniente com nossos descalabros. O Brasil é bom de festa e ruim de vida, que começa dura novamente, nesta segunda-feira de cinzas.

terça-feira, 16 de agosto de 2016

A olimpíada dos selvagens

Em A Conquista do Brasil, está contada uma história nada edificante sobre a origem dos brasileiros. Ali se mostra, por exemplo, como os tupinambás fundavam sua sociedade na rivalidade entre as tribos, faziam da guerra um sistema de vida e cultivavam a raiva vingativa até as raias do absurdo. Desde pequenos, os curumins eram ensinados a ter raiva do "inimigo" e a não perdoar ou poupar ninguém. Para demonstrar seus estado de espírito em relação a qualquer oponente, matavam a dentadas os piolhos que catavam na cabeça.

Com o passar dos séculos, e não foram tantos assim, ocultamos ou esquecemos essas origens, sem enxergar o que há dessa herança dentro de nós: a sociedade brasileira. Uma boa demonstração da nossa índole raivosa e selvagem está sendo dada na Olimpíada, um congraçamento entre os povos, que coloca acima de tudo a igualdade, a esportividade e o fair play. Mas nada disso influencia a torcida brasileira, que vem chocando os povos ditos civilizados.

Que o diga o francês Renaud Lavillenie, que tem a vilania até no nome, mas não podia ter sido apupado na disputa do salto com vara, como foi. Além das vaias durante a competição, foi vaiado no pódio, ao receber a medalha de prata. Num momento que deveria ser de glória, e de valorização e respeito a um adversário, o atleta chorou. De tristeza. O brasileiro Thiago Braz, medalha de ouro, tentou consertar, pedindo aplausos à plateia.

O comportamento da arquibancada, que invariavelmente se manifesta nos jogos como está acostumada em jogos de futebol, onde nunca prima o fair play e o respeito ao adversário, acabou tirando um pouco do brilho da extraordinária vitória de Braz. E demonstra qual é o principal problema brasileiro, fonte de todas as nossas crises, políticas, econômicas e sociais: a falta de educação.

Quem está nos estádios olímpicos não é a massa ignara dos grotões. É gente que pode pagar 900 reais por um ingresso para cada membro da família. É a elite brasileira, que em matéria de civilidade se compara ainda aos seus ancestrais de cocar e bodoque nos lábios.

Os brasileiros resolveram participar dos jogos como um cão feroz, presente em todas as disputas, mesmo as que não envolvem a camisa amarela. No atletismo, o astro Usain Bolt, preferido pelo público, manifestou sua estranheza quando a plateia apupou seu maior rival, o americano Justin Gatlin. "Nunca vi nada parecido", disse ele. Antes de correr, Bolt se acostumou a colocar um dedo nos lábios, mandando a torcida que o adotou calar a boca.

Só isso bastaria para passarmos vergonha, ainda mais vindo o gesto de um homem que não tem uma origem menos humilde que a do nosso próprio povo. A histeria brasileira, porém, é imune a lições de moral. Incomodou até mesmo os atletas da natação. Michael Phelps declarou que nunca ouviu tanto barulho na vida - mesmo numa disputa dentro da água.

Em qualquer esporte, o brasileiro põe para fora o velho índio que mora dentro dele. Não respeita o esforço dos competidores, quaisquer que sejam. Idolatra os vencedores, e condena os perdedores à execração, como se não tivessem valor e fossem zeros à esquerda.

O brasileiro só quer e respeita a vitória. Sua pressão, em vez de útil, se torna contraproducente; coloca uma carga absurda sobre a maioria dos atletas brasileiros. Além do desafio natural das provas, eles têm que lidar ainda com o humor de um país que não perdoa, tantos os inimigos quanto a derrota.

Estaria errado, mesmo que funcionasse. O agravante, porém, é que nem funciona. Se dependesse do furor da torcida, o Brasil é que teria goleado a Alemanha na Copa do Mundo, há dois anos, por 7 a 1.  Mas não foi o que aconteceu. Derrotado fragorosamente dentro e fora de campo, o brasileiro, na sua brutal ignorância coletiva, mostra nos Jogos Olímpicos que não entendeu nada. Nem mesmo do que se trata no evento que está patrocinando.