domingo, 15 de maio de 2016

Para entender o PT, ou: como evitar que a história recente aconteça outra vez

Não existe no mundo inteiro uma força política semelhante à do PT no Brasil: um partido ônibus, que abriga algumas legendas radicais de esquerda, com uma capacidade histórica de aglutinação que vem resitindo aos tempos e às maiores intempéries. Uma grande prova dessa força foi a queda da presidente Dilma Rousseff, no processo de impeachment movido no Congresso, que a afastou por 180 dias até o julgamento final.

Durante os últimos anos, o PT parece ter resistido a tudo. Quando eclodiu o escândalo do mensalão, pelo qual o governo capitaneado pelo partido montou um esquema de corrupção junto aos congressistas em troca de apoio para seus projetos, levando seus principais líderes à cadeia, o partido parecia estar ruindo no próprio cerne. Mas não.

O partido não ruiu, nem seu discurso purista, como se nada daquilo fosse com o PT. O discurso purista radical, que beira o fanatismo, ou um "fundamentalismo político", sempre foi a marca do petismo.  Coloca o partido como "a razão absoluta", uma força independente, contra todas as ideias políticas que não sejam as suas, ainda que boas. Isso colocou o PT sempre contra tudo o que era do interesse nacional, quando proposto por outros - como, para dar apenas um exemplo, a lei de responsabilidade fiscal.

Zé Dirceu, homem forte do partido, líder do governo, foi pra a cadeia; José Genoíno, envolvido no escândalo conhecido na nomenclatura da bizarria nacional como Cuecagate, também. Delúbio Soares, o homem do caixa, também caiu nas redes da polícia por malversação. As máscaras caíram, mas nada disso importou. O PT seguiu adiante, com a pureza das vestais.


A isto, somaram-se suspeitas ainda mais assombrosas, como a progressiva demonstração da implicação do partido nas circunstâncias da morte premeditada de políticos da própria legenda, que estariam contrariando a máquina criada para a corrupção nas administrações onde o PT se instalou. Em especial os casos de Celso Daniel, prefeito do PT em Santo André, assassinado em janeiro de 2002, e Antônio da Costa Santos, o "Toninho do PT", prefeito de Campinas, também assassinado em circunstâncias obscuras em setembro de 2001.

Diante de tudo isso, os petistas se mantiveram na mesma, fiéis à legenda, como se nada tivesse importância, ou fosse suficiente para fazê-los mudar de opinião.

Agora, o governo do PT no plano federal deixa como herança para o país um Estado quebrado por uma gestão ruinosa, que deixou o Brasil economicamente paralisado, e o rastro dos maiores escândalos de corrupção da história, pelos quais se desviaram bilhões de dólares do dinheiro público em estatais como a Petrobras e bancos de fomento como o BNDES.

O grande líder do partido, Lula, político carismático, cuja história se confunde com a própria formação da legenda, a cavaleiro de seu passado de pau de arara que virou líder operário e depois o aglutinador das forças partidárias, hoje é investigado como um criminoso qualquer, que usou o poder para fazer sua família se tornar proprietária de imóves e grandes empresas. Dilma Rousseff, sua sucessora na presidência, caiu pela gestão ruinosa, que a levou ao processo de impeachment. Nada disso, porém, parece importante para as hostes do PT.

Não importam os escândalos de corrupção. Não importa o desemprego de 11 milhões de brasileiros. Não importa que os ganhos sociais supostamente conquistados pelo PT com a política assistencialista e demagógica dos últimos anos tenha se esgotado, levando o Brasil a desabar para dez anos atrás na economia e ainda mais na história.

Durante a gestão Dilma, mesmo diante dos sinais gritantes da necessidade de mudança, o PT continuou pressionando por mais gastos, por mais do mesmo, até que o governo foi estrangulado - e Dilma com ele. A demissão do ministro Levy, encarregado de sanear as contas públicas, por pressão do partido, que queria uma "retomada" das ações que tinham arruinado a administração pública, foram o golpe fatal na gestão da presidente.

Para os seguidores do lulopetismo, que foram às ruas em manifestações da manutenção de Dilma e do próprio partido, o processo de impeachment é "golpe" e a gestão do PT foi de conquistas sociais, como se nada mais existisse além do paraíso das reformas sociais perseguido pelo seu programa. A crise econômica, a corrupção do partido e seus líderes, o dinheiro desviado das contas públicas para as contas suíças de líderes de direita e os próprios dirigentes do PT, do seu ponto de vista, seriam pura ficção.

A repetição do mesmo discurso, não importa a realidade que o cerca, se tornou uma característica marcante do PT, que faz pensar nas raízes desse tipo de comportamento. Fenômeno brasileiro, o aglutinamento do PT está sociologicamente mais próximo da formação das torcidas organizadas de futebol, integradas por indivíduos interessados em pertencer a uma organização, cujos objetivos não seguem nenhuma lógica, exceto o interesse do próprio grupo, disfarçado de paixão clubística.

As torcidas de futebol são um dos mais importantes dados sociológicos da sociedade contemporânea. Desenvolveram organizações sofisticadas que visam criar identidade entre seus membros, valorizá-los e lhes dar perspectivas de "ascensão social" pela identificação com o grupo. O grupo compensa as frustrações pessoais do indivíduo com a imagem de uma organização voltada para a vitória e que lhe dá possibilidade de participação. identidade e reconhecimento.

Assim como as torcidas organizadas de futebol, que  possuem comandos de "guerrilha', destinados a enfrentar outras torcidas organizadas e mesmo ameaçar ou pressionar jogadores e dirigentes,  o PT possui também sua tropa de choque: baderneiros incumbidos de interditar ruas com pneus queimados, vandalizar bancos e lojas em nome da "manifestação contra o golpe" e com a finalidade declarada de "tirar a paz dos golpistas". Buscam influenciar a opinião pública da mesma forma que no terrorismo, dando a impressão de que são uma força maior do que realmente são.

Além das tropas de choque, o PT construiu uma rede de financiamento de seus acólitos por meio dos estamentos do governo, formados com o aparelhamento do Estado nas prefeituras petistas e no governo federal ao longo da última década. A organização de uma vasta rede de entidades disfarçadas de "ONGs" financiadas pelo partido, que Dilma tentou sem sucesso oficializar como instâncias de decisão governamental, criou uma vasta rede de colaboradores investidos da aura de "movimentos sociais" para fazer pressão sobre instituições como o Congresso e o sistema judiciário. Tais ONGs eram pagas inclusive para fazer pressão sobre o próprio governo do PT - dando a impressão de que seriam da sociedade e seus representantes "legítimos" as demandas que nasciam, na realidade, da orientação do próprio partido.

Essa rede se completou com a comunicação. Com um orçamento de 200 milhões de reais ao ano, segundo reportagem da Folha de S. Paulo, a máquina de propaganda do governo federal alimentou diretamente  veículos favoráveis à gestão do PT, incluindo uma rede de blogueiros para promover a defesa do partido, o ataque aos adversários e contaminar as redes sociais com suas versões para a realidade.

Com a queda de Dilma e o corte progressivo dos mecanismos de financiamento de ONGs, blogueiros e seus agentes de guerrilha, o PT tende a perder um pouco de sua força. O fenômeno social que norteia o partido, contudo, continua de pé. Ele deriva da falta de perspectiva do indivíduo na sociedade, em que o consumo parece se oferecer a todos, mas não existe perspectiva real de melhoria de vida e valorização do ser humano. Essa valorização se daria somente pela associação a uma força coletiva capaz de devolver ao indivíduo algum tipo de benefício.

No caso do PT, esse benefício conquistado coletivamente, tendo o partido como meio, pode ser tanto a terra para os sem-terra como o emprego público para o filiado à CUT e o Bolsa Família ao desempregado. Na prática, assim como fez com o Congresso no mensalão, o PT busca enredar o cidadão numa troca de favores, pela qual o indivíduo anódino, sem outras perspectivas, passa a depender do partido e, no governo petista, de sua associação com o Estado paternalista e provedor.

É o mesmo mecanismo que tem catapultado também o fanatismo ligado ao crescimento das igrejas pentecostais, como a Igreja Universal, para quem o pagamento do dízimo se dá em troca do apoio divino na vida terrena. Ao pregar que aquele que contribui em vida em dinheiro com a igreja terá sua recompensa na terra, a Universal constrói um tipo de poder muito semelhante ao do petismo em causa e efeito. Não importa que o dinheiro da Universal sirva para enriquecer seus bispos e construir um patrimônio particular em empresas de comunicação e imóveis. O círculo ao qual se passa a pertencer garante que um grupo cuidará dos seus interesses, que hoje se tornaram, tanto quanto o PT, uma força no Congresso, por meio da chamada "bancada evangélica".

Como reverter esse tipo de processo? Como fazer retroceder essas forças cegas a dados reais como os limites para o orçamento público, que protegem os agentes da corrupção, defendem organizações promotoras da corrupção e reproduzem palavras de ordem sem respeito ao direito à opinião alheia, às voltadas para a violência e ameaçam a diversidade democrática e mesmo a lei civil? A resposta, tão difícil quanto encontrar um meio para deter a violência e a irracionalidade das torcidas organizadas de futebol e as igrejas tomadoras de dízimo, parece ser atacar as raízes sociais desse tipo de organização.

Todo fanatismo do tipo messiânico vem de condições econômicas e sociais objetivas. Dar perspectiva real de promoção social aos indivíduos, não por  concessão do Estado paternalista e do partido "concedente", e sim pelo aumento do emprego via do mercado, o real valorizador do esforço individual, é um caminho essencial. Outra via é pela educação, tanto no sentido de disseminar os princípios democráticos e o exercício da cidadania como pelas possibilidades de crescimento pelo conhecimento e capacitação profissional.

A raiz do sucesso do PT na política, assim como das torcidas organizadas no futebol e as igrejas pentescostais, é o Brasil. Um país onde o capitalismo permanece atrasado por elites retrógradas, que buscam enriquecimento fácil e enfraquecem o Estado. É a cegueira da elite que cria o abismo social brasileiro e faz uma parcela importante da população se organizar em agremiações que se aproveitam da carência coletiva para, em nome dos mais pobres, progredir "contra o sistema" e proteger seus interesses.

Essa tarefa bem poderia caber a um novo partido, consciente do momento sociológico do Brasil, para construir um projeto político sólido, em que a democracia, o crescimento econômico, a liberdade de expressão e a promoção social possam coexistir de forma pacífica e no seu mais pleno vigor. Sem a ameaça de grupos de interesse que, à revelia da maioria, ou mesmo do bom senso, eventualmente é capaz de se instalar no poder. Esse é o desafio que, acima de eleger este ou aquele governo, temos de enfrentar a médio e longo prazo, se não quisermos que a história recente continue a se repetir.


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