terça-feira, 3 de maio de 2016

O governo sacrifica a rainha para continuar no jogo

Que ninguém se engane.

O impeachment não é o fim deste governo e começo de outro. Se há um golpe, é do próprio governo, para poder continuar. E manter a maioria dos envolvidos no escândalo - leia-se Eduardo Cunha, Renan Calheiros e companhia - em ação.

Como no xadrez, estão apenas sacrificando a rainha para continuar no jogo.

Dilma está a caminho do cadafalso, com o andamento do processo de impeachment impulsionado pelo Congresso, que agora vai ao Senado. Mas o governo não mudou. Michel Temer, vice do PMDB, é do governo. Sempre foi. O governo não é do PT, ou somente do PT. É do PT com seus aliados. Tendo à frente o PMDB.

Temer foi eleito também, como vice de Dilma, para o caso justamente do seu "impedimento". Sem Dilma, este mesmo governo quer ganhar fôlego para continuar. Os personagens são praticamente os mesmos. Temer quer colocar como bedel da economia o banqueiro Henrique Meirelles, que foi presidente do Banco Central na gestão Lula. Era o homem que Lula sugeriu a Dilma para a economia no seu segundo mandato. Mas ela fez questão de recusar.

Temer vai fazer o que Dilma não quis fazer. Se o governo for um pouco melhor, e a crise diminuir, espera reduzir a pressão em torno dos demais envolvidos nos escândalos de corrupção. Todos os que estão de certa forma enrolados com o governo, não apenas do PT, como fora dele. A começar pelo presidente da Câmara, Eduardo Cunha, cobra criada na simbiose com o Executivo sob as rédeas do PT.

Dilma não está sendo sacrificada porque é mulher, ou do PT. Sim, ela criminalmente não responde a nada, até porque é velho o truque de manter as digitais do presidente fora das negociatas. Será difícil encontrar vestígio de Dilma no Petrolão, entre outros escândalos. Há sempre uma mão para segurar a caneta no seu lugar. Talvez ela seja apenas refém do partido e do esquema de corrupção que foi montado ainda na gestão de Lula, do qual ela também participou de forma proeminente. O que não quer dizer que ela não sabia de nada. Nem deixa de ter responsabilidade.

A presidente cometeu dois erros. O primeiro foi animar-se com a reeleição. Em vez de sustentar o ministro Levy, promessa da austeridade, indicado pelo Bradesco, cedeu à pressão do próprio partido e o deixou ir embora. O PT, fiel às suas crenças mais cegas, recusou-se a entregar alguns aneis de seu projeto político para não perder os dedos. Colocou-se acima de todos, acima do bem e do mal, e de lá caiu. A parte do governo que viu o PT levando todo mundo junto para o buraco rebelou-se. O governo se bipartiu. E a parcela com os olhos mais abertos prevaleceu, apesar dos protestos petistas, no campo onde justamente tem mais força: o tapetão.

O aprofundamento da crise fez Dilma perder aquilo que manteve Lula no cargo, mesmo com denúncias de corrupção ao seu redor: a perspectiva de crescimento e a solidez econômica. Sem pulso, seu governo saiu do trilho. Agora, ela pagará por esse descontrole. Por ceder ao PT, perdem ambos o espaço no próprio governo. Mas isso não quer dizer que ele acabou. Apenas entra na fase em que já deveria ter entrado quando Dilma foi reeleita. Com um atraso que agravou a situação.

A saída de Dilma permite que o governo tenha uma sobrevida. É possível que até mesmo o PT volte a ele. Temer faz um aceno ao PSDB, mas o PSDB sabe que, por maior que seja a crise, e maior seja a necessidade de união nacional para debelá-la, seu lugar ainda é na oposição. Como parte e sustentação do atual governo, o PMDB terá de salvá-lo com outros partidos já comprometidos com a atual gestão.

Por fora do processo político, corre a Justiça. Não é porque saiu Dilma que as investigações policiais contra os colaboradores do atual governo podem e devem parar.  Os indigitados continuam todos lá, especialmente os colaboradores do governo no Congresso. Se a economia melhorar, ou quando melhorar, a pressão popular pode até diminuir, mas isso não serve como desculpa para deixar de fazer a lei.

Veremos então a força das instituições. Sobretudo, se o Judiciário, que há muito espera para examinar o caso do presidente da Câmara, Eduardo Cunha, cumprirá o seu papel. O processo político encontrou sua saída e o jogo de xadrez vai continuar, na tentativa de proteger politicamente as outras peças do jogador que está perdendo. Mas a Justiça tem a obrigação de retirar as pedras que se mexem fora da regra. E cabe ao eleitor, na próxima eleição, fazer uma limpeza final nisso tudo que está aí.

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