quarta-feira, 18 de maio de 2016

Lembrando Cauby

Em 2009, quando fui convidado pela primeira vez a escrever o perfil dos vencedores do prêmio Paulistanos do Ano, promovido pela revista Veja São Paulo, conheci pessoalmente Cauby Peixoto, destaque na categoria musical. Cauby acabara de ganhar o Grammy Latino, o prêmio Tim, e lotava as suas noites do bar Brahma, no centro velho de São Paulo, com um show em que desfilava seu repertório quase invariável.

Ali, Cauby ainda realizava a mágica que o mantinha vivo, a verdadeira mágica da transformação. Ao colocar suas roupas fulgurantes, a peruca que o deixava com uma cabeleira cheia de anéis, a verdadeira máscara de pintura com que redesenhava seu rosto e lhe dava um semblante um tanto trágico, sua figura ganhava a antiga extravagância e acompanhava o vigor da voz, que já não era a mesma de outros tempos, porém mantinha-se superior à da maioria dos intérpretes de gerações subsequentes.

O Cauby que me recebeu, porém, era um pouco diferente. Foi pouco antes do show, no improvisado camarim do Brahma, uma salinha meio escura, onde mal cabíamos os dois. Sentado numa cadeira de madeira, estava sem a sua clássica peruca: completamente calvo, com o rosto já pintado para o show, mostrava-se envelhecido e frágil, o que explicava ser carregado para o palco, onde cantava sentado, durante todo o espetáculo. Pela proximidade e o despojamento, caí de repente e sem aviso na sua intimidade.


Quando lhe falei que ganhara o prêmio e e eu escreveria sobre ele na revista, ele não pareceu surpreso, mas não deixou de sentir-se lisonjeado. Falou de seu momento e de sua história, desde os tempos em que foi ganhar a vida cantando em bares nos Estados Unidos. Nessa época, pintava já os cabelos de preto, porque os americanos queriam ouvir um latino que se parecesse com o cantor então da moda, o argentino Carlos Gardel.

Com sua voz grave, empostada e calma, Cauby falou ainda de sua vida reclusa, num apartamento de Higienópolis, do qual saía apenas para trabalhar. Achava que assim preservava sua imagem: não era visto nem reconhecido como outra coisa além do personagem que o fizera famoso e que gostaria de preservar.

O que mais me impressionou, no entanto, foi outra coisa. A certa altura, lhe perguntei se não ficara magoado com tudo o que Veja escrevera sobre ele no passado, quando foi taxado de cantor brega e usado incansavelmente como piada. Disse que estava admirado de que ele, apesar daquilo, estivesse me recebendo tão bem daquela forma.

Cauby respondeu que o artista vivia para ser visto: "o mais importante não é o que falam de mim, mas falarem de mim", ele me disse. "A única coisa que me importa, e é sempre uma honra, é ser lembrado." Sem os trajes nos quais brilhava, nesse instante ele me pareceu ao mesmo tempo pequeno e grande: pequeno como ser, frágil, vaidoso, angustiado, e grande, por conta de uma inesperada e superlativa humildade.

Fiquei com ele até o momento de sair, carregado por dois garçons, até o palco. Cauby tinha vencido tudo: a idade, a fama de brega, o esquecimento, e até a revista Veja. Era venerado pela plateia, como poucas vezes vi um artista: havia no ar um certo saudosismo de tempos dos quais todos sentiam falta, e ele simbolizava essa era, como se todos ali de repente pudessem rejuvenescer. E mesmo os jovens pareciam sintonizados  com aquele artista que, no final, já parecia não ter tempo.

Agora que o tempo enfim levou Cauby, penso nele, no seu olhar grato e triste, na alma do artista que vive do calor humano, porém na mais completa solidão. E concluo que ele,na sabedoria de toda uma vida, estava certo: o que importa é deixar alguma coisa aos outros, nossa herança, nosso sentimento, literalmente a nossa voz; e por isso ser lembrado, apenas ser lembrado.


Leia também a reportagem em Veja SP

domingo, 15 de maio de 2016

Para entender o PT, ou: como evitar que a história recente aconteça outra vez

Não existe no mundo inteiro uma força política semelhante à do PT no Brasil: um partido ônibus, que abriga algumas legendas radicais de esquerda, com uma capacidade histórica de aglutinação que vem resitindo aos tempos e às maiores intempéries. Uma grande prova dessa força foi a queda da presidente Dilma Rousseff, no processo de impeachment movido no Congresso, que a afastou por 180 dias até o julgamento final.

Durante os últimos anos, o PT parece ter resistido a tudo. Quando eclodiu o escândalo do mensalão, pelo qual o governo capitaneado pelo partido montou um esquema de corrupção junto aos congressistas em troca de apoio para seus projetos, levando seus principais líderes à cadeia, o partido parecia estar ruindo no próprio cerne. Mas não.

O partido não ruiu, nem seu discurso purista, como se nada daquilo fosse com o PT. O discurso purista radical, que beira o fanatismo, ou um "fundamentalismo político", sempre foi a marca do petismo.  Coloca o partido como "a razão absoluta", uma força independente, contra todas as ideias políticas que não sejam as suas, ainda que boas. Isso colocou o PT sempre contra tudo o que era do interesse nacional, quando proposto por outros - como, para dar apenas um exemplo, a lei de responsabilidade fiscal.

Zé Dirceu, homem forte do partido, líder do governo, foi pra a cadeia; José Genoíno, envolvido no escândalo conhecido na nomenclatura da bizarria nacional como Cuecagate, também. Delúbio Soares, o homem do caixa, também caiu nas redes da polícia por malversação. As máscaras caíram, mas nada disso importou. O PT seguiu adiante, com a pureza das vestais.


A isto, somaram-se suspeitas ainda mais assombrosas, como a progressiva demonstração da implicação do partido nas circunstâncias da morte premeditada de políticos da própria legenda, que estariam contrariando a máquina criada para a corrupção nas administrações onde o PT se instalou. Em especial os casos de Celso Daniel, prefeito do PT em Santo André, assassinado em janeiro de 2002, e Antônio da Costa Santos, o "Toninho do PT", prefeito de Campinas, também assassinado em circunstâncias obscuras em setembro de 2001.

Diante de tudo isso, os petistas se mantiveram na mesma, fiéis à legenda, como se nada tivesse importância, ou fosse suficiente para fazê-los mudar de opinião.

Agora, o governo do PT no plano federal deixa como herança para o país um Estado quebrado por uma gestão ruinosa, que deixou o Brasil economicamente paralisado, e o rastro dos maiores escândalos de corrupção da história, pelos quais se desviaram bilhões de dólares do dinheiro público em estatais como a Petrobras e bancos de fomento como o BNDES.

O grande líder do partido, Lula, político carismático, cuja história se confunde com a própria formação da legenda, a cavaleiro de seu passado de pau de arara que virou líder operário e depois o aglutinador das forças partidárias, hoje é investigado como um criminoso qualquer, que usou o poder para fazer sua família se tornar proprietária de imóves e grandes empresas. Dilma Rousseff, sua sucessora na presidência, caiu pela gestão ruinosa, que a levou ao processo de impeachment. Nada disso, porém, parece importante para as hostes do PT.

Não importam os escândalos de corrupção. Não importa o desemprego de 11 milhões de brasileiros. Não importa que os ganhos sociais supostamente conquistados pelo PT com a política assistencialista e demagógica dos últimos anos tenha se esgotado, levando o Brasil a desabar para dez anos atrás na economia e ainda mais na história.

Durante a gestão Dilma, mesmo diante dos sinais gritantes da necessidade de mudança, o PT continuou pressionando por mais gastos, por mais do mesmo, até que o governo foi estrangulado - e Dilma com ele. A demissão do ministro Levy, encarregado de sanear as contas públicas, por pressão do partido, que queria uma "retomada" das ações que tinham arruinado a administração pública, foram o golpe fatal na gestão da presidente.

Para os seguidores do lulopetismo, que foram às ruas em manifestações da manutenção de Dilma e do próprio partido, o processo de impeachment é "golpe" e a gestão do PT foi de conquistas sociais, como se nada mais existisse além do paraíso das reformas sociais perseguido pelo seu programa. A crise econômica, a corrupção do partido e seus líderes, o dinheiro desviado das contas públicas para as contas suíças de líderes de direita e os próprios dirigentes do PT, do seu ponto de vista, seriam pura ficção.

A repetição do mesmo discurso, não importa a realidade que o cerca, se tornou uma característica marcante do PT, que faz pensar nas raízes desse tipo de comportamento. Fenômeno brasileiro, o aglutinamento do PT está sociologicamente mais próximo da formação das torcidas organizadas de futebol, integradas por indivíduos interessados em pertencer a uma organização, cujos objetivos não seguem nenhuma lógica, exceto o interesse do próprio grupo, disfarçado de paixão clubística.

As torcidas de futebol são um dos mais importantes dados sociológicos da sociedade contemporânea. Desenvolveram organizações sofisticadas que visam criar identidade entre seus membros, valorizá-los e lhes dar perspectivas de "ascensão social" pela identificação com o grupo. O grupo compensa as frustrações pessoais do indivíduo com a imagem de uma organização voltada para a vitória e que lhe dá possibilidade de participação. identidade e reconhecimento.

Assim como as torcidas organizadas de futebol, que  possuem comandos de "guerrilha', destinados a enfrentar outras torcidas organizadas e mesmo ameaçar ou pressionar jogadores e dirigentes,  o PT possui também sua tropa de choque: baderneiros incumbidos de interditar ruas com pneus queimados, vandalizar bancos e lojas em nome da "manifestação contra o golpe" e com a finalidade declarada de "tirar a paz dos golpistas". Buscam influenciar a opinião pública da mesma forma que no terrorismo, dando a impressão de que são uma força maior do que realmente são.

Além das tropas de choque, o PT construiu uma rede de financiamento de seus acólitos por meio dos estamentos do governo, formados com o aparelhamento do Estado nas prefeituras petistas e no governo federal ao longo da última década. A organização de uma vasta rede de entidades disfarçadas de "ONGs" financiadas pelo partido, que Dilma tentou sem sucesso oficializar como instâncias de decisão governamental, criou uma vasta rede de colaboradores investidos da aura de "movimentos sociais" para fazer pressão sobre instituições como o Congresso e o sistema judiciário. Tais ONGs eram pagas inclusive para fazer pressão sobre o próprio governo do PT - dando a impressão de que seriam da sociedade e seus representantes "legítimos" as demandas que nasciam, na realidade, da orientação do próprio partido.

Essa rede se completou com a comunicação. Com um orçamento de 200 milhões de reais ao ano, segundo reportagem da Folha de S. Paulo, a máquina de propaganda do governo federal alimentou diretamente  veículos favoráveis à gestão do PT, incluindo uma rede de blogueiros para promover a defesa do partido, o ataque aos adversários e contaminar as redes sociais com suas versões para a realidade.

Com a queda de Dilma e o corte progressivo dos mecanismos de financiamento de ONGs, blogueiros e seus agentes de guerrilha, o PT tende a perder um pouco de sua força. O fenômeno social que norteia o partido, contudo, continua de pé. Ele deriva da falta de perspectiva do indivíduo na sociedade, em que o consumo parece se oferecer a todos, mas não existe perspectiva real de melhoria de vida e valorização do ser humano. Essa valorização se daria somente pela associação a uma força coletiva capaz de devolver ao indivíduo algum tipo de benefício.

No caso do PT, esse benefício conquistado coletivamente, tendo o partido como meio, pode ser tanto a terra para os sem-terra como o emprego público para o filiado à CUT e o Bolsa Família ao desempregado. Na prática, assim como fez com o Congresso no mensalão, o PT busca enredar o cidadão numa troca de favores, pela qual o indivíduo anódino, sem outras perspectivas, passa a depender do partido e, no governo petista, de sua associação com o Estado paternalista e provedor.

É o mesmo mecanismo que tem catapultado também o fanatismo ligado ao crescimento das igrejas pentecostais, como a Igreja Universal, para quem o pagamento do dízimo se dá em troca do apoio divino na vida terrena. Ao pregar que aquele que contribui em vida em dinheiro com a igreja terá sua recompensa na terra, a Universal constrói um tipo de poder muito semelhante ao do petismo em causa e efeito. Não importa que o dinheiro da Universal sirva para enriquecer seus bispos e construir um patrimônio particular em empresas de comunicação e imóveis. O círculo ao qual se passa a pertencer garante que um grupo cuidará dos seus interesses, que hoje se tornaram, tanto quanto o PT, uma força no Congresso, por meio da chamada "bancada evangélica".

Como reverter esse tipo de processo? Como fazer retroceder essas forças cegas a dados reais como os limites para o orçamento público, que protegem os agentes da corrupção, defendem organizações promotoras da corrupção e reproduzem palavras de ordem sem respeito ao direito à opinião alheia, às voltadas para a violência e ameaçam a diversidade democrática e mesmo a lei civil? A resposta, tão difícil quanto encontrar um meio para deter a violência e a irracionalidade das torcidas organizadas de futebol e as igrejas tomadoras de dízimo, parece ser atacar as raízes sociais desse tipo de organização.

Todo fanatismo do tipo messiânico vem de condições econômicas e sociais objetivas. Dar perspectiva real de promoção social aos indivíduos, não por  concessão do Estado paternalista e do partido "concedente", e sim pelo aumento do emprego via do mercado, o real valorizador do esforço individual, é um caminho essencial. Outra via é pela educação, tanto no sentido de disseminar os princípios democráticos e o exercício da cidadania como pelas possibilidades de crescimento pelo conhecimento e capacitação profissional.

A raiz do sucesso do PT na política, assim como das torcidas organizadas no futebol e as igrejas pentescostais, é o Brasil. Um país onde o capitalismo permanece atrasado por elites retrógradas, que buscam enriquecimento fácil e enfraquecem o Estado. É a cegueira da elite que cria o abismo social brasileiro e faz uma parcela importante da população se organizar em agremiações que se aproveitam da carência coletiva para, em nome dos mais pobres, progredir "contra o sistema" e proteger seus interesses.

Essa tarefa bem poderia caber a um novo partido, consciente do momento sociológico do Brasil, para construir um projeto político sólido, em que a democracia, o crescimento econômico, a liberdade de expressão e a promoção social possam coexistir de forma pacífica e no seu mais pleno vigor. Sem a ameaça de grupos de interesse que, à revelia da maioria, ou mesmo do bom senso, eventualmente é capaz de se instalar no poder. Esse é o desafio que, acima de eleger este ou aquele governo, temos de enfrentar a médio e longo prazo, se não quisermos que a história recente continue a se repetir.


"O Brasil só se mexe na crise"

Entrevista na rede Vida sobre a saída de Dilma, o impeachement, a crise política e econômica e o que nos aguarda depois de tudo.
http://redevida.com.br/programa/tribuna-independente/comentaristas/analise-politica-do-jornalista-thales-guaracy.html

sexta-feira, 13 de maio de 2016

Carta aberta a Temer

Caro presidente em exercício, Michel Temer,

Como já bem mostrava o resultado das urnas na última eleição, Dilma Rousseff estava à frente de um país dividido. De lá para cá, essa divisão se tornou ainda mais profunda. Dilma se recusou a olhar para essa situação. Em vez de mudar a rota da política econômica, combater administrativamente a corrupção, corrigir as contas do governo, cedeu às pressões da ala mais radical do próprio partido e aprofundou a crise. Ao tentar colocar Lula no ministério, para protegê-lo das denúncias de corrupção com a imunidade dada ao alto escalão do governo, deixou bem claro de que lado estava.

Isso precipitou sua queda.

O lugar agora é seu, por 180 dias, ou até a próxima eleição. Tomo a liberdade de escrever para lembrá-lo de que, em qualquer um dos casos, seu posto é temporário. Esse tempo pode ser bem usado ou não. Não será fácil, pois o país ainda se encontra dividido. E um presidente deve governar para todos.

O que nos divide hoje é o julgamento sobre a gestão do PT. A administração ruinosa, que quebrou o Estado e paralisou a economia, tão dependente da ação estatal na gestão petista, somou-se à bandalheira mais descarada da história do Brasil. É difícil acreditar que vocês pensassem que tudo passaria em branco.

O governo do PT foi também o seu governo, como vice-presidente e líder do PMDB, com quem o PT se associou tanto na gestão administrativamente ruinosa como na bandalheira. A participação de membros-chave de seu partido e da legenda na institucionalização do roubo está mais que provada. Não se engane. O povo dividido olha para o seu governo com tanta desconfiança e desprezo quanto já olhava para o do PT, tendo o PMBD na base aliada. O que eu chamo de "povo" inclui ambos os lados: os simpatizantes do lulopetismo e aqueles que trabalharam, nas manifestações das ruas ou dentro do Congresso, para derrubá-lo.


Existe algo, porém, que ainda une ambos os lados. Esse algo, que já levou Lula e o PT ao governo, é a esperança histórica de milhões de brasileiros de ver realizado o projeto de um grande país. Esse sonho está muito claro diante dos nossos olhos. Ele contempla ambos os lados da contenda atual: aqueles que querem ver o Brasil crescer, dentro do ambiente democrático, sem a corrupção que atingiu um grau nunca visto, e aqueles que ainda defendiam este governo, por ver nele a única esperança de justiça social.

Não são coisas excludentes, pelo contrário. Está provado que, num país em que todos têm acesso aos bens de consumo, o mercado cresce e o país também. Porém, existem outras formas de promoção social. E de fazer o país crescer novamente, em outras bases. Sem corrupção: o veneno que desmoraliza, corrói e mata qualquer administração.

Nenhum ajuste da economia traz popularidade. O remédio sempre é amargo. Mais do que cortar gastos, porém, é preciso mudar a lógica da economia brasileira. Ela não pode depender tanto dos recursos e da ação do Estado, hoje falido e combalido. O governo precisa mudar a dinâmica pela qual se inflou o consumo de massa com programas assistencialistas. E recuperar sua capacidade de investimento em outras coisas que contribuem de forma melhor para a promoção social. Políticas de incentivo ao emprego. Subsídio para a moradia. Saúde de qualidade. Educação.

Não pagar ou pagar menos por escola privada, por planos de saúde caros e insuficientes, pela primeira moradia são formas de melhorar a renda. São meios de promoção social. Esta se dá, sobretudo, pelo emprego. Programas assistencialistas como o Bolsa Família são úteis por algum tempo, mas no longo prazo se tornam pesadelos financeiros e sociais, porque incentivam a dependência do Estado: são a instituição da inação premiada. O que se precisa no Brasil é criar emprego. O homem (digo aqui homens e mulheres) se valoriza pelo trabalho.

O Brasil teve, pelo inflamento artificial do consumo, uma oportunidade de dar o passo inicial para gerar emprego. O governo, porém, não foi corrigindo a rota de suas contas para transformar o aumento de impostos gerado pelo crescimento da economia em outros investimentos que permitissem uma política social mais duradoura. Foi até onde não podia, gastando o que não tinha com as mesmas coisas, e o modelo se esgotou e ruiu, desabando de uma só vez.

Hoje estamos mergulhados numa crise sem precedentes. E precisamos de um faxineiro para resolver tudo isso. Um faxineiro sem medo. E que saiba que está no posto para resolver problemas, e não apenas proteger seu bando das acusações que sobre ele pesam ou continuar extorquindo o povo brasileiro.

Essa faxineiro não pode se esquecer que subiu ao cargo pelo voto popular, junto com Dilma, e está em xeque tanto quanto ela. Tanto do ponto de vista administrativo quanto ético e moral. O apoio ao seu governo dependerá exclusivamente do seu desempenho. E, no Brasil, o mau desempenho e o mau comportamento têm se revelado politicamente fatais.

Não falo aqui só da Justiça que bate às portas dos acusados de corrupção, nem da execração da má administração. Falo do julgamento da história, a forma como um presidente será para sempre lembrado. Seu passaporte para a eternidade.

Esta é sua hora de escolher quem deseja ser aos olhos da História. Olhe para Dilma, olhe para Lula. O senhor parece entender que a política é a leitura não do que o governante quer, mas da determinação de um povo. O Brasil mostrou-se capaz de manter-se em linha reta e tirar da frente aqueles que não seguem os desígnios da Nação. Aquilo que nos une. Não apenas a língua, a cultura, a história.

Falo do projeto que se construiu para este país, sobretudo depois da volta da democracia plena, que é a ideia de um país respeitador do Estado de Direito, democrático, economicamente estável, com aspirações ao Primeiro Mundo. E uma determinação firme do conjunto da sociedade de justiça social, para tirar este país do vergonhoso lugar que ocupa na lista da miséria.

Nisso estão junto todos, o rico que se locupletou na era Lula e agora a renega como ao Cão, o pobre do Bolsa Família, a classe média urbana hipertaxada que foi às ruas pela queda do PT.

Cabe ao senhor começar essa jornada: ela não lhe dá opção, senão acertar. Só há um caminho.

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Caro Lula,

Ontem o governo do PT chegou ao fim. Graças à indignação de milhões de brasileiros, não apenas os de oposição, como aqueles que se sentiram traídos pelo PT, um partido nascido na luta e organização do trabalhador, identificado com a valorização da classe operária, de onde você veio. Especialmente aqueles brasileiros que pertencem à imensa parcela miserável da nossa população.

Sim, o PT ainda tem muitos partidários. Mas estes fazem parte daquela pequena elite histórica do partido, mantida pela fidelidade pecuniária ou um certo fanatismo religioso, travestido de materialismo dialético.

É uma minoria: não foi essa gente que o colocou na presidência, nem repetiu seu voto de confiança, quando você apresentou como sucessora a agora defenestrada Dilma Rousseff.

O povo traído é muito maior, mais amplo, menos afeito a modelos ideológicos. Foi atraído pelo seu discurso, que pareceu tão verdadeiro, e hoje se tornou apenas mais um exemplo da demagogia que já fez tanto mal ao nosso país.

Aquele povo que teve com você um breve interlúdio de esperança. Que viu no seu passado de pau de arara a garantia de que manteria, no poder, os pés no chão, a sua humildade original. Que via na sua biografia e nas suas ideias um antídoto contra os delírios do poder e as práticas das castas políticas que você sempre combateu e estamos cansados de rever desde o Brasil-colônia.

O povo traído é aquele que você fez experimentar o gosto do que podia ser. Porém, como farsa: mais uma breve e eleitoreira ilusão. Enquanto dava ao povo migalhas, você e seu partido conspiravam com os velhos lobos da política em proveito próprio. E você não hesitou em sustentar a farsa tão longe quanto pôde, para garantir a sucessão.

O povo foi traído, mas a maior traição é a do homem que trai a si mesmo. Você teve a grande chance de passar para a História como o transformador de um país. Levado talvez pela falsa sensação de impunidade conferida pela popularidade, trocou isso por um sítio com churrasqueira e pedalinho. Uma casa na praia e um frigorífico. Coisas assim.

Sim, nada disso está no seu nome, e sim no de amigos e familiares. Porém, faz parte do delírio de onipotência subestimar a inteligência alheia. Pode ser que a Justiça não tenha meios de julgar se as propriedades em questão são suas, exceto talvez pela sonegação. Pode ser que você não seja diretamente implicado em todo o vasto esquema de corrupção do PT, do mensalão ao saque das estatais. Pode ser que outros sejam sacrificados no seu lugar, para proteger covardemente o seu nome. Mas o julgamento ético, moral e político, diferente do criminal, não precisa dessas evidências para se estabelecer. Esse já aconteceu.

Você podia ter sido grande, mas mostrou aos pobres que eles só podem ambicionar pouco no Brasil. Porque ser rico é pouco, quando se tem a possibilidade da eternidade como um estadista, o transformador de um país, um verdadeiro benfeitor.

Você poderia entrar na história como gigante, e por mesquinharias, por fraqueza, entrará como mais um daqueles ratos que sempre combateu. A máquina que você construiu massacrou sua sucessora e você também. Porque não há futuro político para um traidor.

Você podia ter mudado a política brasileira. Ao governar com os lobos da política, porém, se tornou mais um deles. Serviu a eles, e não ao eleitor que o levou ao poder. E, no poder, envergonhou o povo. Nem um lobo de verdade foi. Sua matilha se contentou com Atibaia, enquanto os lobos históricos iam para a Suíça, iam para Paris. Até mesmo na riqueza, você se comportou como o retirante que não aspira nada mais que a vida da classe média. Podia ter mais, muito mais. Mas esse já não é um caso da política. É um caso para a polícia.

Como jornalista, não posso declarar meu voto. Posso dizer, no entanto, em quem jamais votei. Jamais votei em você, mas confesso que seu carisma sempre me encantou. Em 1989, quando eu era editor de política em Veja, tive a oportunidade de conhecê-lo pessoalmente e de perto, na campanha para presidente que marcou a volta da democracia plena ao Brasil. Em duas ocasiões, pude admirá-lo em todo o seu esplendor.

A primeira delas, assim que saiu o resultado do primeiro turno, fui em sua casa, no ABC, já então "emprestada" de um empresário amigo, Roberto Teixeira. Fiquei surpreso quando você manifestou a certeza, na entrevista, de que todos os partidos derrotados no primeiro turno se juntariam ao seu redor numa coalizão contra Fernando Collor. Você teve essa visão primeiro e estava certo: o político intuitivo, o político nato.

A segunda vez que você mostrou-se a mim foi na única entrevista exclusiva que concedeu a alguém da imprensa, no segundo turno. Dentro do carro que o levava para casa, depois de um comício, comentei como seria extraordinária a história de um ex-pau de arara chegar a presidente.

Você respondeu que extraordinário era ter virado metalúrgico, e que a distância percorrida entre o pária e o profissional especializado era muito maior que entre o operário e o presidente. "Você jamais entenderá isso, porque para entender precisa vir de onde eu vim", você me disse, frente a frente, na solidão do banco de trás de um carro trafegando em alta velocidade.

Nunca me esqueci daquilo, mas você mesmo se esqueceu. Nunca votei em você, mas eu acreditava nos seus propósitos, e por isso, diante do grande desapontamento da sua era no poder, eu me sinto também um pouco perdedor. Você traiu as duas coisas que tinha de mais importante e o transformaram na esperança do Brasil: o senso político e o compromisso com sua própria origem. Isso entristece a mim, entristece a nós.

Sim, eu entendi você, antes. O que não entendi, ou melhor, não aceito, é aquilo em que você se transformou.

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quinta-feira, 12 de maio de 2016

Carta aberta a Dilma Rousseff

Cara Dilma,

O dia amanheceu frio e cinzento em São Paulo, tem a cara deste momento, em que você sai do Palácio do Planalto, concluído o afastamento pelo processo de impeachment, segundo votou na madrugada o Senado.

Ouvi cedo lá fora os rojões de muitos brasileiros, que passaram a odiar seu governo e o do PT e têm razões para acreditar que tudo isso é justo e certo e que as coisas vão melhorar. Mas eu continuo cinzento e triste como o dia.

Estou cinzento e triste por conta da decepção. Porque o fim do seu governo, pelo qual votaram 54 milhões de brasileiros na última eleição, representa não apenas o afastamento da presidente, mas a conclusão de uma era, o fim de um sonho, da esperança de ver as coisas mudarem no Brasil.

Essa era começou com Lula e termina com Lula e você. Uma era em que se tinha esperança de uma política diferente, de um partido que sempre se opôs à corrupção e defendeu a melhoria da qualidade de vida dos mais pobres. Um projeto de gente com história pessoal que assegurava a honestidade de propósitos. Um projeto destinado a diminuir as desigualdades sociais e instalar uma nova forma de fazer política, em que a corrupção, o conchavo em benefício de interesses particulares, daria lugar ao espírito público e ao interesse da esmagadoria maioria pobre do povo brasileiro.

Quando assumiram o poder, já na primeira gestão Lula, vocês sabiam que tinham essa responsabilidade histórica. E tinham a força do voto popular para implantar seu projeto. Não podiam errar. E o primeiro erro foi colocar na mesma canoa o PMDB, representante da velha política brasileira. Tinha de dar certo. Porque, se desse errado, o Brasil cairia novamente no colo dos mesmos de sempre - e de um jeito pior.

E vocês erraram. Deixaram que a corrupção partisse do próprio núcleo do Estado, primeiro pela sistemática de pagar em moeda sonante por apoio político: o mensalão.


Daí em diante, as portas da corrupção foram se escancarando. A Petrobras, considerada uma empresa inexpugnável, foi sugada até a inanição. Arruinou-se o BNDES. Onde se olha no governo do PT, em seu quarto mandato, se vê a associação espúria com o velho Brasil.

Os ganhos sociais, que começaram a aparecer no governo Lula, foram perdidos. A ideia de programas assistencialistas não podia existir sem outras providências: o controle do gasto público, o investimento em saúde, educação, emprego.

Por algum tempo, vocês tiveram o sonho nas mãos. Mas, como em todo sonho, acreditaram que podiam ficar nele, sem manter um pé na realidade. Foram intoxicados, inebriados pelo sucesso no poder, algo proverbialmente sempre tão passageiro. Não, vocês não pensaram nisso. Seguiram o fácil, seguiram gastando. Deixaram que as alas radicais do partido impedissem que o pé voltasse ao chão. E vocês, que tinham a responsabilidade da gestão pública, perderam o pé.

Com essa administração ruinosa de qualquer ponto de vista, seja ético, administrativo, político e econômico, surgiu uma brecha escandalosa para a volta do velho, agora travestido com a roupa missionária do salvador da pátria. Os lobos em pele de cordeiro. Mas foram vocês que deixaram isso acontecer.

Isto é o que faz o dia cinzento e triste. Não é só o Brasil que está perdendo. É a própria ideia de que se pode atingir o progresso com promoção social. O que vocês fizeram foi abalar a esperança de um Brasil melhor, sob o governo de uma esquerda responsável, que permitisse manter e assegurar o ganho do mais pobres.

Agora, você sai do Palácio com 11 milhões de desempregados e uma administração ruinosa em todos os sentidos, que nos joga para trás quinze anos na economia e muito mais que isso na História. Teria custado controlar o gasto público? Teria custado passar a mão na caneta para demitir os corruptos por improbidade?

Ao deixar de fazer o que devemos, a tarefa acaba caindo para os outros. Os lobos, que sempre viveram debaixo da sua cama, vão tomar conta do Palácio. Fazem isso não porque têm um projeto para o Brasil, ou se interessam pelo destino do povo brasileiro. Vão assumir para, com o poder, continuar a proteger seus interesses, ainda mais agora, que estão sob a luz das investigações policiais.

Talvez as coisas melhorem, pois até os lobos sabem que em terra arrasada não há comida para ninguém. Porém, sabemos que a riqueza que eles criam é para eles, e não para ser distribuída entre aqueles que trabalham: o povo brasileiro batalhador e sofrido que votou em você e depositou, em você, as suas esperanças.

Eu não posso perder as minhas. Este é meu país, onde estão as pessoas de quem gosto, a família, as raízes. Cresci ouvindo minha mãe cantar o hino nacional e chorar pelos mais pobres, a quem ela, professora primária, procurava dar alguma vida nas escolas da periferia de São Paulo, pelo ponto de partida: a alfabetização.

Eu não posso desistir, não posso perder a esperança. É preciso reconstruir a esquerda, ou melhor, criar uma nova esquerda, sólida, responsável, sem esses fanáticos que acham que oposição é agitar bandeira vermelha na rua e, em nome de ideias caducas, inspiram somente o caos.

Eu quero uma esquerda sólida, democrática, responsável, que tenha um projeto de poder voltado para a promoção social, de forma efetiva e duradoura. Que tenha compromisso com a responsabilidade fiscal. Com o trato correto do dinheiro público. Que não ceda a pressões espúrias. Que foque seu trabalho  nas verdadeiras funções sociais do Estado, especialmente a promoção do emprego, a moradia, a saúde e a educação.

Eu gostaria de dizer até breve, mas prefiro dizer adeus, porque o que estávamos procurando era outra coisa. Sei que passará muito tempo até termos outra oportunidade como a que foi perdida. Mas, como dizem os chineses, para cumprir uma longa jornada, é preciso dar novamente o primeiro passo. E, provavelmente, atravessar alguns pântanos. De novo.

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quarta-feira, 11 de maio de 2016

O impeachment de Dilma: as instituições funcionam

A crise não é das instituições. As instituições é que estão funcionando para resolver o dano que indivíduos e grupos causaram ao país.

Toda vez que há uma crise política e econômica, levanta-se a tese de que o Brasil passa por uma "crise institucional". Isto, é, que estaria no sistema institucional, na fórmula da democracia brasileira, a raiz dos nossos problemas. E não seria, portanto, uma responsabilidade individual ou dos partidos.

Aqueles que criticam o sistema, porém, estão sendo desmentidos mais uma vez, com o processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff. Estão aí todos os elementos para demonstrar que o Brasil funciona. E que os delitos cometidos, assim como a crise econômica, são produto de gente de carne e osso, a caminho da devida punição.

Desde a volta da democracia plena ao país, dois presidentes já tiveram processos de impeachment levados adiante: Fernando Collor e a própria Dilma. Dois presidentes de coloração política inversa, o que mostra que o impeachment não é instrumento de golpe desta ou aquela corrente. O que ambos os casos têm em comum, e motiva o impeachment, é a administração ruinosa - tanto por promover a corrupção como pelo descarrilhamento da economia, duas coisas que geralmente andam juntas.

Aqueles que dizem que o Congresso teria praticado um "golpe" contra um governo legitimamente eleito nas urnas, o bordão passado para ser repetido pelas hostes do PT, deixam de lado as duas questões reais. Uma é o descalabro total da administração pública federal, ignorado apenas por quem não quer ver. Além disso,  no sistema republicano, de equilíbrio entre os Três Poderes, cabe ao Judiciário, Legislativo e Executivo fiscalizarem um ao outro. O Legislativo é eleito também de forma legítima pela população. Com mandato, inclusive, para instaurar processo de impeachment do presidente, quando for o caso.

O que está acontecendo, na prática, não é uma ineficiência ou crise das instituições. Ao contrário, é o seu funcionamento prático, diante de atos de indivíduos e grupos que devem ser responsabilizados criminal e administrativamente, depois de formarem uma verdadeira rede construída para saquear o Estado brasileiro.

O governo produziu o mais volumoso escândalo de corrupção de todos os tempos no país e a maior recessão desde a década de 1980. Interromper a caminhada para o caos é não apenas facultado ao Judiciário e ao Legislativo, como é seu dever constitucional. E o Legislativo entra como instituição, que está funcionando, apesar da corrupção de muitos de seus membros.

Se houve alguma falha das instituições, se deve à extrema tolerância típica do brasileiro. Quando Fernando Henrique era governo, já se falava em corrupção na Petrobras. Na primeira gestão de Lula, já estava a céu aberto o mecanismo do mensalão. Porém, a economia ia melhorando. E, com isso, preferiu-se fazer vista grossa ao que ia acontecendo. Não se queria, com o justo cumprimento da lei, atrapalhar o momento político, ou colocar crise num momento de bonança econômica.

Esse foi o erro. Falhou a imprensa, ao deixar de denunciar desvios já desde a gestão do PSDB, onde nasceu a raiz dos males que acometem estatais como a Petrobras, catapultados pelo PT à terceira potência. Falhou a Justiça, que deixou de investigar e punir com a devida ênfase  e presteza a corrupção desde o início, não cortando o mal pela raiz. E falhou o próprio Legislativo, levado pelo canto da sereia dos mensalões. Em vez de cumprir o seu papel, contaminou-se com as falcatruas do executivo até a medula.

Agora, diante da crise, e depois da chacoalhada geral com a série de manifestações que cobriram o país de norte a sul desde o ano passado, a polícia está fazendo seu trabalho, assim como procuradores e juízes. A imprensa também. E mesmo o Legislativo, com todas as suas mazelas, despertou para a necessidade de fazer alguma coisa, diante do caos que ajudou a criar.

As instituições têm de funcionar independentemente da economia. Se há crime, não importa se o governo vai bem ou não. É preciso agir. A consequência na demora da ação é o volume de corrupção, que chegou a montantes jamais vistos no Brasil. O dinheiro desviado da Petrobrás equivale ao produto interno de muitos países pelo mundo.

Na democracia brasileira, o mecanismo do impeachment serve para barrar o descalabro. Não é válido dizer que é golpe qualquer movimento para tirar um presidente do poder, porque todo presidente é eleito por eleição direta. Isso não lhe dá, porém, plenos poderes para deixar a roubalheira comer solta, nem sustenta politicamente alguém que à frente de como um Estado quebrado e inerme.

Apesar da tardança, o Brasil mostra que é capaz de reagir a situações de crise, utilizando justamente mecanismos institucionais democráticos. Ninguém falou em ditadura. Ninguém viu tanque na rua. A presidente, seu partido e colaboradores terão agora de fazer um exame de consciência. Porque os crimes que foram cometidos não o foram pelas instituições. E sim por indivíduos que quiseram não só roubar como institucionalizar o roubo.

Dilma não pode dizer, como disse, que a corrupção apareceu porque seu governo a combateu. Ela nunca segurou a caneta para demitir alguém por improbidade. Seus malfeitores favoritos só foram cerceados pela Polícia.

Sua única ação administrativa foi para proteger um deles da lei: Lula, o padrinho. Lógico que suas digitais não estão nos crimes em si. Há sempre alguém para segurar a caneta no lugar da presidente. Tudo porém passa sob o seu queixo. Por isso o processo do impeachment é por definição mais político que jurídico. Interessa menos a digital que as responsabilidades.

Certa vez, o então presidente americano Bill Clinton disse que os americanos não tinham "nenhum defeito que não pudessem resolver com as suas virtudes". No Brasil, os males são grandes. Mas nossas virtudes, a começar pelas instituições, também.

terça-feira, 3 de maio de 2016

O governo sacrifica a rainha para continuar no jogo

Que ninguém se engane.

O impeachment não é o fim deste governo e começo de outro. Se há um golpe, é do próprio governo, para poder continuar. E manter a maioria dos envolvidos no escândalo - leia-se Eduardo Cunha, Renan Calheiros e companhia - em ação.

Como no xadrez, estão apenas sacrificando a rainha para continuar no jogo.

Dilma está a caminho do cadafalso, com o andamento do processo de impeachment impulsionado pelo Congresso, que agora vai ao Senado. Mas o governo não mudou. Michel Temer, vice do PMDB, é do governo. Sempre foi. O governo não é do PT, ou somente do PT. É do PT com seus aliados. Tendo à frente o PMDB.

Temer foi eleito também, como vice de Dilma, para o caso justamente do seu "impedimento". Sem Dilma, este mesmo governo quer ganhar fôlego para continuar. Os personagens são praticamente os mesmos. Temer quer colocar como bedel da economia o banqueiro Henrique Meirelles, que foi presidente do Banco Central na gestão Lula. Era o homem que Lula sugeriu a Dilma para a economia no seu segundo mandato. Mas ela fez questão de recusar.

Temer vai fazer o que Dilma não quis fazer. Se o governo for um pouco melhor, e a crise diminuir, espera reduzir a pressão em torno dos demais envolvidos nos escândalos de corrupção. Todos os que estão de certa forma enrolados com o governo, não apenas do PT, como fora dele. A começar pelo presidente da Câmara, Eduardo Cunha, cobra criada na simbiose com o Executivo sob as rédeas do PT.

Dilma não está sendo sacrificada porque é mulher, ou do PT. Sim, ela criminalmente não responde a nada, até porque é velho o truque de manter as digitais do presidente fora das negociatas. Será difícil encontrar vestígio de Dilma no Petrolão, entre outros escândalos. Há sempre uma mão para segurar a caneta no seu lugar. Talvez ela seja apenas refém do partido e do esquema de corrupção que foi montado ainda na gestão de Lula, do qual ela também participou de forma proeminente. O que não quer dizer que ela não sabia de nada. Nem deixa de ter responsabilidade.

A presidente cometeu dois erros. O primeiro foi animar-se com a reeleição. Em vez de sustentar o ministro Levy, promessa da austeridade, indicado pelo Bradesco, cedeu à pressão do próprio partido e o deixou ir embora. O PT, fiel às suas crenças mais cegas, recusou-se a entregar alguns aneis de seu projeto político para não perder os dedos. Colocou-se acima de todos, acima do bem e do mal, e de lá caiu. A parte do governo que viu o PT levando todo mundo junto para o buraco rebelou-se. O governo se bipartiu. E a parcela com os olhos mais abertos prevaleceu, apesar dos protestos petistas, no campo onde justamente tem mais força: o tapetão.

O aprofundamento da crise fez Dilma perder aquilo que manteve Lula no cargo, mesmo com denúncias de corrupção ao seu redor: a perspectiva de crescimento e a solidez econômica. Sem pulso, seu governo saiu do trilho. Agora, ela pagará por esse descontrole. Por ceder ao PT, perdem ambos o espaço no próprio governo. Mas isso não quer dizer que ele acabou. Apenas entra na fase em que já deveria ter entrado quando Dilma foi reeleita. Com um atraso que agravou a situação.

A saída de Dilma permite que o governo tenha uma sobrevida. É possível que até mesmo o PT volte a ele. Temer faz um aceno ao PSDB, mas o PSDB sabe que, por maior que seja a crise, e maior seja a necessidade de união nacional para debelá-la, seu lugar ainda é na oposição. Como parte e sustentação do atual governo, o PMDB terá de salvá-lo com outros partidos já comprometidos com a atual gestão.

Por fora do processo político, corre a Justiça. Não é porque saiu Dilma que as investigações policiais contra os colaboradores do atual governo podem e devem parar.  Os indigitados continuam todos lá, especialmente os colaboradores do governo no Congresso. Se a economia melhorar, ou quando melhorar, a pressão popular pode até diminuir, mas isso não serve como desculpa para deixar de fazer a lei.

Veremos então a força das instituições. Sobretudo, se o Judiciário, que há muito espera para examinar o caso do presidente da Câmara, Eduardo Cunha, cumprirá o seu papel. O processo político encontrou sua saída e o jogo de xadrez vai continuar, na tentativa de proteger politicamente as outras peças do jogador que está perdendo. Mas a Justiça tem a obrigação de retirar as pedras que se mexem fora da regra. E cabe ao eleitor, na próxima eleição, fazer uma limpeza final nisso tudo que está aí.