quarta-feira, 30 de março de 2016

O PMDB e a volta dos que não vão

Sai o PMDB do governo, para voltar daqui a pouco.
E o PT volta a ser apenas o PT. Um partido pequeno, embora barulhento, capaz de encher uma rua de bandeiras vermelhas, ocupar uns sindicatos e instrumentalizar o movimento sem-terra. Provavelmente sairá desse episódio muito avariado, sem nem mesmo conseguir de vez em quando pegar uma ou outra prefeitura mais importante.
Isso acontece quando o presidente não é de um partido majoritário. Não adianta o presidente ser popular e seu partido não ter representação no Congresso. Esse paradoxo só é possível em países cujas instituições favorecem o surgimento de líderes populistas, tanto quanto o encastelamento das elites no poder. Uma democracia de difícil digestão.
Lula conquistou as massas para o PT, mas não conseguiu fazer seu partido ser majoritário no Congresso e o apoiou em bases espúrias. Deveria ter tentado de outro jeito, talvez, e foi refém do próprio PMDB que agora deixa o PT ruir sozinho. Caiu na bandalheira do mensalão e outros "ãos" que o puseram a perder e deixaram os mesmos com o poder novamente à sua mercê.
As elites ainda estão incrustradas nos estamentos do poder. E mesmo um líder popular só governa no Brasil quando também serve a elas. Quando a elite deixa de ganhar dinheiro, é ela, a elite, e não a plebe insatisfeita, que força a troca de mandatário.
Anti-democracia? Não. Apenas a democracia à brasileira. O impeachment está virando instituição. É a forma substitutiva do que acontece no parlamentarismo: quando um governo vai mal, o primeiro-ministro cai. Muda o governo sem eleição e sem abalar as estruturas. No Brasil, é impeachment.
Dilma, abandonada, fica agora sem saída. Andará pelos corredores do Planalto como o personagem de Garcia Marquez em "Ninguém Escreve ao Coronel". Ainda há tempo de renunciar. Mas talvez ela ache que ser imolada a fará mártir algum dia.
Único no PMDB que garante sua permanência no governo, para poder tomar o poder lá na frente, Temer provavelmente sabe que precisa consertar as coisas rápido, ou toda essa manobra de nada adiantará. É um desafio e tanto. O PMDB também é réu e a pressão da Justiça vai continuar. A mudança do presidente, porém, pode trazer alguma reação no terreno da economia, onde a paralisia de Dilma vai transformando o desastre em catástrofe.
O sistema partidário no Brasil precisa melhorar. E fica o desafio para a reconstrução da esquerda, entendida como uma força política a favor de mais justiça social num país de desigualdades tão gritantes. O que, da forma como estamos, abre tanto espaço para líderes populistas e candidatos a ditador de opereta quanto para coronéis que cobram seu apoio político em dinheiro.
Isso precisa acabar e só acabará quando a esquerda se organizar solidamente de forma partidária. Uma esquerda que vá além do PT, mais moderada, mais democrática, menos sujeita a acordos espúrios e com um programa mais sólido, que possa garantir de fato uma reforma social bem sucedida a longo prazo.
No momento, mais urgentemente, o que precisamos não é de um governo de esquerda ou de direita. É de um choque de gestão na administração pública. Um governo capaz de combater a crise. Como foi o de Itamar Franco, um vice que chegou também atrás de um processo de impeachment e, saindo do quase anonimato, cometeu um erro atrás do outro, mas não desistiu até consertar a economia, desfigurada pela superinflação.
Era um tipo esquisito, e o Brasil sacudiu como um caminhão numa estrada de terra, mas foi o melhor presidente que o Brasil já teve desde que a democracia voltou.

A luta continua

A lista da Odebrecht revela acima de tudo a grande falha do sistema eleitoral brasileiro. O financiamento de campanhas na teoria deveria ser livre: qualquer um pode contribuir com quem quiser. Na prática, o que se vê é um sistema pelo qual empreiteiras financiam políticos para obter favorecimento nas obras públicas. Esse dinheiro que o político despeja na empreiteira em parte reverte para ele mesmo.
O financiamento da campanha dos políticos e seus partidos, portanto, é feita com dinheiro público. Do eleitor e contribuinte. Quase não existe, de fato, contribuição privada.
Isso explica em grande parte porque a política brasileira não se renova. Ela é feita para perpetuar os mesmos. No cargo público, o político recebe dinheiro de empresas que favorece e refinancia assim sua existência na política. É um círculo vicioso.
Culpa dos políticos ou do sistema? São as pessoas que fazem o sistema. É preciso alguém com espírito público para mudar o sistema. Alguém que não queira apenas se beneficiar dele. Alguém que não queira ficar rico, mas obter algo mais importante: melhorar o Brasil, a vida dos brasileiros, e ficar com a maior riqueza, que é ser reconhecido por sua contribuição ao bem comum. Esse entrará para a História de forma decente. Talvez gloriosa.
Lula teve essa oportunidade. Mas foi mais um a jogá-la no lixo.
Continuamos procurando.

Símbolo de Deus

A parte mais interessante do listão da Odebrecht são os codinomes dos seus beneficiários. Dentre eles, o mais misterioso é o 333, de José Serra. Difícil ter certeza do seu significado, mas há pistas. Na Bíblia, 333 é o símbolo de Deus. Representa a Santíssima Trindade: Pai (3), Filho (3) e Espírito Santo (3).
O tucanato, no rastro de sua divindade, saiu batendo asas. Aécio afirmou que o dinheiro apontado na lista é de doações legais. Se são legais, para que codinomes?
A Justiça tem muito trabalho pela frente. E o governo deve saber de uma coisa: jogar a luz na oposição não muda nada. Se não quisesse estar na situação atual, que tivesse administrado melhor o país, que tivesse sido fiel aos seus princípios, que não tivesse saqueado o Estado duplamente: por demagogia e ganância.
O PT devia saber que, com uma gestão ruinosa, daria espaço novamente aos adversários. E que dilapidar o Estado resulta em impeachment. Preocupar-se com isso somente agora, e, uma vez feito o estrago, acusar de golpismo a Justiça, a oposição e todo o povo brasileiro revoltado com a corrupção mais escandalosa é que soa a golpe.

Verdades

Ouvindo em casa o disco do irmão do André, 9 anos.
- João está cantando e tocando muito bem. Só falta ganhar um dinheiro...
André:
- Outro dia ele foi tocar (com a banda Bell & The Boys) lá na Paulista. Só dava nota de 2.
Dou risada.
- É - acrescenta André. - Ele disse que deu mais de 60 reais!
Mais risos.
- Está melhor que você - completa ele. - Que ganha 3 reais por livro.
(...)
(Verdade).

Conexões: A Conquista do Brasil

"Prezado Thales, boa tarde. Interrompi minha leitura de "A Conquista do Brasil" para procurar referências suas na Internet, até que encontrei o seu site. O objetivo deste é lhe enviar meus parabéns pela sua obra, que ainda não terminei de ler. Sou jornalista, entre outras formações, e por ter trabalhado com Educação e Turismo, já muito li e viajei pelas terras deste nosso Brasil e do mundo. Sou um entusiasta de História, notadamente do Brasil e dos grandes personagens do passado. Muito já li de diversos autores e continuo minha procura por novas e velhas obras que possam me enriquecer. Sua obra supracitada é especial, provavelmente a melhor leitura que fiz da história do nosso Paí­s. Aprendi ao longo do tempo que nossa herança cultural foi forjada com a mistura forçada de nossos antepassados de índios de várias tribos, portugueses e negros e, mais tarde, de outras imigrações. Essa mistura vem dos sangue derramado em guerras, do suor do trabalho árduo e escravizado e do sexo que miscigenou nossas raí­zes. Muito do nosso presente se explica olhando e estudando o passado. Quero lhe dar os parabéns pelo seu trabalho. Pelo prazer de poder ler transcrito o sentimento do sábio Anchieta, dividido entre o alí­vio de sobreviver às escaramuças, mas angustiado de ver muito do gentio dizimado. Obrigado. Um abraço. M. B."

Tenho recebido muitos emails como este de leitores de A Conquista do Brasil. Dá aquele alívio de ver que o trabalho alcançou o que eu desejava. E o prazer de contar com a simpatia das pessoas com quem a gente, pelo livro, acaba estabelecendo uma conexão.

quinta-feira, 17 de março de 2016

A reconstrução da esquerda e a saída para o Brasil

O desfecho do processo de corrupção contra o governo, que tem como novo símbolo a nomeação de Lula como ministro da Casa Civil para escapar à prisão, oficializando o próprio Palácio do Planalto como valhacouto para o crime, deixa em todos os brasileiros um sentimento natural de desesperança. E desconstrói a imagem da esquerda, entendida como a força política alinhada com o interesse popular, das causas sociais, preocupada não apenas com o desenvolvimento econômico, como também com uma certa distribuição de renda e uma sociedade mais justa.

Parece que a esquerda fracassou. Porém, na verdade, ela nem começou.

O rumo tomado pelo PT desfez a ideia de que tínhamos no governo um projeto de esquerda. Junto com a ruína do PT, é preciso reconstruir não apenas a economia nacional, como um projeto de esquerda verdadeiro. Que faça o trabalho esperado de Lula, de forma eficaz e duradoura, para que o Brasil possa realmente subir um degrau na escala do desenvolvimento econômico e social.

Passado o tempo, fica mais claro que o Lula e o PT não foram, de fato, a esquerda no poder. Não passaram de mais um governo demagógico, que distribuiu benefícios aos mais pobres, na forma de programas como o Bolsa Família, um método clássico de perpetuação de líderes de direita.

O demagogo é de direita, não importa se dá dinheiro aos pobres, porque em vez de mudar a estrutura da sociedade, avançar nas mudanças sociais, cria uma ilusão, com ajuda de um certo carisma. E mantém o status quo, as velhas estruturas, enquanto na surdina de quebra vai locupletando o próprio bolso.

A demagogia é direita porque é conservadora. Não muda a sociedade. Mantém e fortalece as velhas raízes, inclusive as que instalaram a corrupção crônica no sistema. O PT não é diferente de Eduardo Cunha, o corrupto da elite. Eles fazem parte do mesmo eixo.

Nenhum projeto demagógico dura muito. Pode durar a existência de um político carismático, capaz de criar a imagem de "pai dos pobres", como foi chamado Getúlio Vargas, em quem Lula muito se espelhou. Porém, não dura porque não há uma criação de riqueza real que possa ser distribuída e mudar o país.

Hoje, estamos voltando de repente para a economia de dez anos atrás. Os programas assistencialistas do PT quebraram as finanças públicas. O dinheiro que sustentava a bolha acabou. E ela está se dissolvendo no ar.

O projeto do PT no governo foi um fiasco, mas a esquerda não acabou. É preciso reconstruí-la em bases mais sólidas, porque o Brasil precisa avançar no terreno social. Porém, o que é a esquerda? Defini-la é também apontar soluções para o futuro, é saber o que fazer.

Está provado que o assistencialismo é um bumerangue, volta contra o governante e o povo. É preciso abandonar as medidas demagógicas, ao preço que for. Sanear o Estado. Eliminar paulatinamente os programas que sangram as contas públicas. Recuperar a capacidade de investimento do Estado. Isso significa mais crise, por algum tempo. O PT fez uma festa com dinheiro. E não há outro jeito senão pagar essa conta.

O segundo passo é o que a esquerda deveria se propor como esquerda. Uma maior igualdade social, ao modelo do que temos em alguns países europeus, se dá pela ação do Estado onde o Estado deveria estar.

Um bom programa de educação, com escolas públicas de qualidade, dá oportunidade aos mais pobres, que hoje não têm dinheiro para pagar por escolas particulares. E desonera a classe média, que também sofre com esse tipo de despesa.

Outra área prioritária de investimento num programa efetivo de esquerda é a da saúde. Uma rede hospitalar e de atendimento médico de qualidade, ampla e eficaz, tem o mesmo efeito que o projeto educacional - oferece igual oportunidade a todos.

Nem sempre a distribuição de renda acontece pela transferência de dinheiro aos mais pobres, de forma direta, por meio da taxação dos mais ricos. Ela pode se dar com um investimento do Estado em algo que de fato diminua a despesa de todos os cidadãos. Todos pedem por serviço público, especialmente educação e saúde de qualidade. Ao investir nisso, o Estado desonera a todos. Promove um ganho de renda. Dá iguais oportunidades a todos. Isso é promoção social.

Um governo de esquerda pode e deve estimular a iniciativa privada. Ela é que cria caminhos reais de desenvolvimento, porque está sempre à procura de oportunidades, de fazer mais. Uma reforma fiscal, que simplifique e desonere não apenas os grandes capitalistas, como a grande massa de pequenos empreendedores, que são a nova força da economia mundial, seria um fator econômico importante.

No mundo global, a tendência de concentração de riqueza nas mãos de algumas empresas é muito forte. Porém, todos aqueles que são excluídos desse grupo começam a formar também o que se poderia chamar de economia da cauda longa: uma infinidade de pequenos negócios que, no conjunto, têm uma força ainda maior.

O estímulo ao pequeno e médio empresário, ao profissional liberal, a integração ao sistema do grande contingente de empreendedores que hoje trabalha na clandestinidade porque não pode arcar com o peso de taxas e impostos, daria certamente um novo impulso ao país e às finanças públicas.

Nao existe muita divergência entre partidos quanto a quais são os grandes desafios do poder público no Brasil. Como nos Estados Unidos, o que se discute aqui são pequenas diferenças. Nos EUA, os partidos majoritários são muito parecidos. Suas diferenças se dão na ênfase: ênfase na carga de impostos, na preocupação com a saúde, com a educação, além de algumas questões de princípio, como a defesa do aborto legal.

A esquerda ainda tem uma grande missão no Brasil. Só que ela precisa ser de verdade. Ninguém é contra a promoção social - nem o capitalista mais reacionário. Mesmo os ricos não querem viver atrás de cercas elétricas e sabem, melhor que ninguém, que um povo com mais renda se traduz em um grande mercado consumidor para produtos e serviços.

O Brasil precisa de mudanças, mas que sejam duradouras, para não voltar sempre às mesmas crises. Essa ciclotimia é que está cansando, pelo menos a geração que construiu a democracia após a ditadura, ajudou a estabilizar a economia e agora se vê às voltas com os mesmos problemas de antes: uma crise econômica e ética que ameaça nos recolocar no ponto inicial outra vez.

O dano econômico e ético que o PT causou ao país é profundo, a ponto de muita gente questionar as instituições. Mas elas estão funcionando, a começar pelo Judiciário. O que se precisa, apenas, é de clareza - e um projeto de esquerda verdadeiro, limpo, que coloque o eixo no lugar.

É pouco provável que o eleitor vá identificar esse papel com o PSDB, que teve a oportunidade de implantar um projeto real de esquerda mas não avançou, deixando o terreno ao PT - e é tão responsável pelo que acontece agora quanto o monstro que o sucedeu.

Esse projeto de esquerda pode vir agora, com um acordo pelo qual a presidente Dilma pode negociar com a oposição um programa para levar seu governo até o fim. Esse governo ainda pode servir de alguma coisa, além de guarida para foragidos da Justiça. Ou, com ou sem impeachment, isso terá de acontecer no próximo governo, inapelavelmente.




quarta-feira, 16 de março de 2016

Tem algo pior que o Bolsonaro: a direita disfarçada de esquerda


Zé Dirceu saiu da Casa Civil para se defender das acusações de corrupção. Foi para a cadeia. Lula entra na Casa Civil para se defender das acusações de corrupção. Sua família, enrolada na condição de laranjas, está à deriva. Lula retoma o governo no qual fez a neutralizada Dilma de fantoche. Ele pode tentar raspar o fundo do tacho do erário para tirar o Brasil da paralisia, mas só estará aprofundando a crise, que vai estourar pior, de novo, mais além.

Seu projeto não é mais disputar a próxima eleição. É salvar o que resta de sua imagem, deixando ao sucessor a tarefa amarga de lidar com um país quebrado. Serão três anos de luta política e econômica se nada acontecer, pela Justiça ou pelo processo de impeachnment.

É um plano de quem já está dando tudo como perdido. E quer levar o país junto. Só uma coisa é certa. O brasileiro vai pagar a conta de tudo o que forem fazer.

O pior é a ausência de uma liderança respeitada na oposição. Nesse vácuo, ganham espaço os Bolsonaros da vida. Bolsonaro é um terrorista, um criminoso. Só que já esqueceram disso, aparentemente, e na política ele construiu uma carreira longe dessas negociatas. Agora, pode aparecer como paladino.

Não adianta a esquerda reclamar da "ameaça da direita golpista". Ela é que acirra o maniqueísmo e deu espaço para os moralistas.

Bolsonaro, porém, não é a pior direita. A pior direita é a direita disfarçada de esquerda. Está claro hoje que Lula nao é a esquerda. Não há nada mais à direita, mais conservador, mais explorador do povo, mais mantenedor do status quo que um governo populista e demagógico.

Dar um dinheirinho para o pobre ficar satisfeito, sem mudar a sociedade, é o que o demagogo faz para se perpetuar no poder. E o que todos reclamam, inclusive quem acha que está defendendo Lula, é que o abismo social continua. Continua, porque nada mudou no governo do PT. Os banqueiros nunca foram tão ricos. Os pobres voltam à indigência do pé no chão. Lula deu ao povo brasileiro mais uma ilusão provisória, que agora vai estourando como uma bolha de sabão.

sexta-feira, 4 de março de 2016

Lula só não contava com a crise

No que o ex-presidente Lula é diferente do ex-presidente FHC?

Muito pouca coisa.

Quando deixou o governo, FHC aconselhou Lula a seguir as diretrizes básicas da política econômica, que tinha dado estabilidade ao país por oito anos. A inflação estava controlada, as finanças melhoraram, o país estava preparado para crescer. O Brasil estava sendo arrumado.

Lula fez um governo sobre aquelas bases e ampliou sua ação social. Não investiu em educação, saúde e outras áreas onde devia colocar o dinheiro público. Promoveu uma rede assistencialista que aumentou a renda dos mais pobres, gerando uma bolha que devia ter sido seguida por outras medidas.

O PT, porém, se acomodou nessa passageira glória. O modelo precisava de uma reinvenção, ou de um segundo passo, que não aconteceu. A fórmula se esgotou. O governo gastou além do que devia e a crise econômica internacional ajudou a deixar a sucessora de Lula, Dilma Rousseff, sem saída.

Lula copiou FHC em outras coisas, porém. Ao sair do governo, criou, como seu antecessor, um "Instituto" para receber doações financeiras de empresas - acertos do tempo de governo, que lhe dariam uma aposentadoria folgada, sob os moldes de uma instituição supostamente sem fins lucrativos.

Uma maneira elegante inventada por FHC para abrigar dinheiro privado num bolso que antes não tinha mais que o salário de presidente e as aposentadorias como professor.

Lula também fez outras coisas semelhantes a FHC no território eticamente discutível. No governo FHC, o falecido jornalista Paulo Francis já denunciava desvios da Petrobras, caminho aberto que o PT aprofundou para desviar dinheiro primeiro supostamente para o projeto de perpetuação do partido no poder e, pelos escaninhos desviantes que surgem na surdina, para o bolso de seus operadores.

Claro, tudo isso seguiu no governo de Dilma.

Lula fez tudo parecido com FHC. Por que ele, porém, é que está sendo intimado pela Polícia Federal a depor pelos escândalos de corrupção, e não o cacique do PSDB?

Lula sabe muito bem como é a índole do brasileiro. A imprensa, as instituições, ninguém incomodava FHC porque havia uma crença generalizada de que o presidente estava colocando o Brasil no caminho certo. E ninguém queria arruinar a economia e seu próprio bolso com um processo que não interessava.

Lula teve a prova de que a ética não é mais importante do que a política na disputa pela reeleição. Seu oponente, Geraldo Alckmin, expôs na campanha eleitoral e nos debates ao vivo na TV as denúncias de corrupção do governo petista que já vazavam aos borbotões em sua primeira gestão.

Porém, o eleitorado não quis nem saber. A economia estava direito, o povo estava recebendo dinheiro, o mercado se inflava e a elite empresarial enchia a burra. Ninguém queria abrir um processo que não interessava. Lula se reelegeu com folga, diante de um surpreso Alckmin.

O erro no plano de Lula foi confiar demais no Brasil. Acreditou que o país seguiria no rumo do crescimento graças às bases que estavam plantadas. E que tudo o que fizesse seria varrido para baixo do tapete, como aconteceu com FHC. Seu excesso de confiança, o mesmo com que estimulava os brasileiros a uma onda de otimismo sem precedentes, no final o traiu.

Veio a crise - a única coisa que o brasileiro realmente não tolera. As denúncias surgiram mais claras. A elite antes satisfeita se voltou contra Lula. Não porque ele é um ex-operário, ou porque está à frente de um partido e de um governo com um projeto de esquerda, voltado para a distribuição de renda. Os bancos nunca ganharam tanto dinheiro quanto no lulopetismo. O PT também podia fazer o que quisesse, e ter o ideario que quisesse, desde que continuasse dando lucro.

Os únicos que bradaram contra o PT estavam dentro da classe média urbana, que promoveu as primeiras manifestações públicas a favor do impeachment. Não porque a classe média é mais esclarecida, e sim por estar pagando a suposta redistribuição de renda que financiou a onda consumista na ascendência da chamada classe D.

Porém, mesmo uma família de baixa renda não compra três geladeiras por ano. Esse ciclo se esgotou. Sobrou a classe média raivosa e agora os ex-ascensionais, que voltam para a velha realidade: o D de "desemprego" e "desilusão".

Se a corrupção sempre existiu, o processo de impeachment contra Dilma é golpe? É golpe na medida em que só acontece em função da crise, que é econômica, e não política ou mesmo ética. Do ponto de vista ético e político, deveriam ser investigados todos os processos de corrupção no país desde Cabral.

Isso vai muito além de Lula. O PT tem aliados na teia da corrupção que vão bem além das fronteiras do partido, haja vista a participação de Eduardo Cunha, líder do PMDB na Câmara nos escândalos em investigação. A rede da corrupção é ampla, geral e irrestrita. Está nos gabinetes de Brasília e nos escritórios envidraçados das grandes corporações.

Ao mesmo tempo, o processo de impeachment contra Dilma e a investigação da participação de Lula no Lava Jato não é golpe, uma vez que os elementos estão todos aí: corrupção ativa e passiva, tráfico de influência, administração ruinosa.

O Brasil nasceu sob o signo dos saqueadores, como mostra meu mais recente livro, A Conquista do Brasil (Editora Planeta). Tem sido assim ao longo de sua história. Isso não mudou, e não só por causa da elite política. Enquanto os brasileiros tolerarem a corrupção em qualquer tempo, incluindo na bonança, a ética não será respeitada, nem a política renovada. Essa é a grande mudança que este país precisa, capaz de consolidar instituições que garantam mais probidade, eficiência e controle na administração pública.

Até lá, será hipocrisia falar mal de Lula, ou de Dilma, ou de Cunha, ou de quem quer que seja: pessoas à imagem e semelhança do próprio eleitor. Certamente, puni-los seria um começo. Mas o Brasil tem defeitos congênitos que vão muito além.


Lula na Polícia Federal: um dia para reflexão


O ex-presidente Lula se recusou a comparecer à polícia para depôr na investigação da operação Lava a Jato, que busca esclarecer os crimes cometidos durante a gestão do PT no governo federal, com a ajuda de políticos das velhas oligarquias. A Polícia Federal, porém, hoje foi buscá-lo em casa, em São Bernardo do Campo, para um "depoimento coercitivo". Um bom recado de que ninguém está acima da lei. Nem um ex-presidente que já foi bastante popular.

Em vez de se comemorar (não vejo o que comemorar), hoje é um dia para se refletir. Refletir que os bons propósitos, como a melhor redistribuição de renda, não podem passar na frente de certos princípios básicos, como a probidade administrativa.

Nem se trata mais do aparelhamento do Estado por um partido com um projeto demagógico de esquerda. É lamentável o desperdício de uma oportunidade histórica de se mostrar que é possível ter o governo de um ex-despossuído, que fala em nome dos mais pobres, quando esse ex-despossuído passa a agir não como as elites que ele combateu, ou o estadista que marcaria uma era, e sim, tristemente, como o mero pobre famélico que enfim coloca as mãos no pote de ouro.

Nem mesmo o aparelhamento do Estado por um partido de esquerda com fins à perpetuação no poder, como um fim em si, acaba sendo um propósito maior que a oportunidade perdida de lançar o Brasil um degrau acima no desenvolvimento. O desvio de dinheiro para fins partidários acaba no desvio para cofres particulares. O projeto político vira crime comum. E o comportamento do partido se mimetiza com o das velhas oligarquias, que sempre agiram da mesma forma.

Em vez do Brasil grande, o que Lula acaba colocando como propósito é ser dono de um sítio e ter um apartamento na praia, o sonho de classe média a que todo egresso da miséria. Em vez de tirar de sua origem a grandeza, Lula ficou com o que há de menor, ou que parece pequeno, diante daquilo que ele se tornou.

O destino de Lula deve ser o mesmo que o dos velhos oligarcas com os quais o PT se associou, cujo maior símbolo é Eduardo Cunha, presidente da Câmara, líder do PMDB e do que de pior existe na política brasileira. Assim como não se pode deixar de investigar o passado e o presente do PSDB.

O surgimento de denúncias que começam a pegar o principal partido de oposição pelas beiradas sugerem que a Justiça está trabalhando em todas as direções, com a sua venda proverbial. A diferença entre Lula e FHC é que, se preso, Lula irá para uma cela comum, enquanto FHC irá para uma cela especial, por ter nível universitário - mais uma lei da elite bramca que domina o Brasil desde a colonização.

Ah, engano: Lula também irá para cela especial, por ser ex-presidente. Também esse privilégio ele adquiriu da elite, assim como o comportamento, desde que mudou de classe social.