sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Requião e o coronel Lobo fazem um refém

Em março de 1991, eu trabalhava como repórter especial de política do Estadão, na equipe do então diretor de redação Augusto Nunes; trabalhava sobretudo para trazer histórias de fundo na edição de domingo. Dessa forma, fui destacado para fazer uma matéria no Paraná, onde a eleição para o governo do estado deixara uma história rumorosa que ainda estava devendo apuração. Durante a campanha, a equipe do então candidato Roberto Requião mostrara um depoimento de um suposto pistoleiro, o "Ferreirinha", que dizia ter cometido crimes a mando da família de latifundiários do candidato concorrente, José Carlos Martinez. Como veio a se saber depois, "Ferreirinha" na verdade não era Ferreirinha nem pistoleiro, e sim um farsante - na época em que alegava ter trabalhado para os Martinez, era ainda uma  criança.

Às vésperas da posse de Requião, Martinez tentava impugnar a eleição, alegando que a mentira tivera influência decisiva no resultado das urnas. E lá fui eu, sobretudo para tentar encontrar o "Ferreirinha", cujo nome verdadeiro era Afrânio. Segui seus passos por todos os lugares onde passou, da pensão pulgueirinha onde ele morou, na zona do baixo meretrício de Curitiba, até a Viação Cristo Rei, de onde tinha sido demitido depois de várias bebedeiras. Não pude encontrar pessoalmente o ex-motorista, que segundo indícios desaparecera na fronteira paraguaia, mas reconstituí sua trajetória.

Andar no submundo de Curitiba não foi tão alarmante quanto o encontro com Roberto Requião. Encontrei-o em sua casa, na companhia do coordenador de campanha Fabio Campana e de um boneco feito por sua filha, Roberta, que me apresentou com orgulho: uma versão gigante do Lobo Mau, trajado como um dândi, que Requião batizara de "coronel Lobo". Requião me convidou a ver o video original do "Ferreirinha" na sua sala de TV, saiu do recinto e, inexplicavelmente, trancou a sala por fora à chave. Me deixou ali como refém para ver "o vídeo na íntegra". Fui liberado quando ele resolveu voltar.

Ao final da entrevista, mesmo diante de todas as evidências, Requião se recusou a aceitar o fato de que sua campanha veiculara uma mentira. "Se esse Ferreirinha é um ator, deve ser o Marlon Brando", ele me disse. Professor de formação, Requião me deu a impressão de ser uma mente brilhante, mas um tanto perturbada. Ameaçava continuar sua campanha difamatória contra Martinez, sob a alegação de que, ainda que "Ferreirinha" fosse uma fraude, os crimes cometidos contra grileiros pelos Martinez seriam verdade.

 Ex-tesoureiro da campanha de Fernando Collor à presidência em 1989, Martinez seria acusado em 1992 de receber 4,5 milhões de dólares de PC Farias para comprar a TV Corcovado, aumentando sua rede de mídia, que já contava no Paraná com a CNT. Morreria aos 55 anos num acidente de avião, com o prestígio abalado, assim como todos os que foram denunciados por corrupção na era Collor. O tempo mostrou que Martinez não era de fato nenhum anjo. Para mim, porém, ficou a sensação naquele episódio paranaense de que não havia santo de lado algum.


A matéria:



Requião (à esq.), seu assessor Fabio Campana, o "coronel Lobo" e eu:


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