sábado, 31 de outubro de 2015

Cunha, as mulheres e o desprezo pela moral

As mulheres foram às ruas prostestar contra a mudança na lei que dificulta o aborto legal em casos de estupro. O autor do projeto? Eduardo Cunha. Deputado do PMDB, presidente da Câmara. O mesmo que recebia dinheiro escuso em troca de influência e o mandava para a Suíça. O mesmo que está tão enrolado nas falcatruas do governo federal quanto o próprio governo.

Não é coincidência. Cunha revela o que está por trás de todas as suas ações. Trata-se de uma coisa só, alarmante e disseminada na elite e no Congresso brasileiro. É o desprezo pela moral.

Ele não se importa com os outros. Não sente o peso da responsabilidade pelo que faz. Não se importa com a mulher que entra no hospital e não pode receber assistência depois de ser violentada, porque não cumpriu "exigências legais". Que o hospital possa ser legalmente punido se lhe der assistência e a "pílula do dia seguinte".

Cunha não se importa com os brasileiros que passam fome ou lutam com dificuldade. Nem com o fato de que sua maneira de agir deturpa todo o sentido do sistema representativo e democrático.

Cunha não se importa de usar o cargo que recebeu para trocar favores com o governo, no sistema de proteção mútua, em que usa sua posição no Congresso para proteger Dilma, e recebe apoio em troca para protegê-la. Nem de ser o homem mais odiado do país.

A corrupção é simbiótica. Uns dependem dos outros. Antes dela, porém, vem a falta de moral. É a falta de moral que leva um cidadão num cargo público a trair quem votou nele e defender interesses escusos pensando em si em primeiro lugar. É a falta de moral que leva a acreditar que não há moral e que qualquer ação é justificada. É falta de moral manter o poder apoiado na cumplicidade das negociatas, e não no espírito público, que deveria nortear a nomeação de um representante do povo.


A falta de moral vem antes da falta de ética, antes da desonestidade. A ética é uma forma de conduta balizada pela moral. Assim como a honestidade. Para o indivíduo amoral, não existem barreiras éticas ou legais. Existe apenas o que ele quer.

Na realidade, a falta de moral destrói o indivíduo. Dá a sensação de impunidade, porque o amoral imagina que a moral á sua volta não tem importância. Esse elemento é o que cria um psicopata. Quem despreza a moral, quem despreza o outro, acaba desprezando a lei. Na cabeça dele, Cunha não cometeu nenhum crime, não fez mal a ninguém. A ausência de moral justifica os atos do vigarista, do corrupto, do criminoso, e do louco. Tira-lhe a carga da condenação pública. Assim ele pode dormir tranquilo, fazendo o que faz.

Resta à sociedade  mostrar que as coisas não são assim. E colocá-lo no devido lugar.

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Dilma devia ficar

Não é preciso estar em Brasília, nem ter bola de cristal, para saber que o processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff deveria dar em nada. A razão é uma só. Ninguém pode querer o lugar dela. Pelo menos, por enquanto.

Assumir o governo agora, para qualquer um, seria carregar também o ônus da crise na próxima eleição. E o povo brasileiro estará muito mau humorado.

Durante uma década, entre o segundo mandato de Lula e o atual de Dilma, O PT aprofundou no governo os gastos públicos delirantes que levaram à falência do Estado. O crescimento do país se baseou no chamado "investimento social", que se somou ao desperdício puro e à sangria da corrupção para levar o Estado brasileiro à bancarrota.

Por anos, gastando além da conta, foi o governo que deu empuxo à economia. Agora, endividado, não tem mais como continuar. Para corrigir isto, é preciso consertar as finanças federais, o que significa tirar a locomotiva que carregou o Brasil nesse ciclo ilusório de crescimento.

Ele não teria sido tão ilusório se, por trás daquele impulso inicial do mercado, com o crescimento da renda da classe C e D, houvesse um maior controle fiscal, uma administração equilibrada e um incentivo ao investimento privado, que nos colocasse na rota do crescimento sustentável.

Isso não aconteceu. O empresariado brasileiro foi sócio do governo nessa jornada brancaleone. Mamou tranquilo no dinheiro que aparecia de repente, enchendo os bolsos sem fazer a sua parte. Ficou satisfeito enquanto o povo comprava TVs e geladeiras e fez vista grossa à corrupção - quando não colaborou. Nadou em dinheiro por algum tempo. Agora, terá de entregar os anéis conquistados estes anos, demitindo quem contratou e recolocando as coisas do tamanho que eram dez anos atrás.

Isso significa que temos à nossa frente inevitavelmente um período longo e doloroso. Não apenas o governo federal está sofrendo. Até mesmo municípios começam a se queixar de falta de caixa. Há lugares onde se anuncia que não haverá 13o para o funcionalismo. Isso, porque o setor público não pode demitir, como o privado está demitindo. As contas públicas viraram uma calamidade, que só vai aumentar, na mesma medida em que a receita tributária cai com a recessão.

Dilma: no governo, como marionete

Quem iria querer assumir o ônus de arrumar isto? O PSDB, como oposição, vai esperar confortavelmente sentado pela próxima eleição. O PMDB, aliado do PT, é um partido parasitário. Está sempre ao lado do governo, para obter favores, mas no plano federal não assume o primeiro plano, para não virar vidraça. É assim que ele funciona.

Além disso, o PMDB também tem muita roupa suja na lavanderia para se expôr ainda mais. As denúncias de corrupção que recaem sobre o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, sugerem que quanto menos exposição para o partido, melhor.

Em 1991, quando começou a campanha do impeachment de Fernando Collor, o Brasil também se encontrava numa profunda crise econômica. Ao entrar no governo, com o pacote que assumidamente era a única bala que devia matar o "tigre", e não matou, pelo contrário, Collor deixou o país numa situação igualmente periclitante.

O vice, Itamar Franco, assumiu por duas razões. Primeiro, naquele tempo o PMDB ainda estava mais perto do PMDB de Ulysses Guimarães, que ajudara a construir a democracia no Brasil - era um partido diferente deste que está aí, desfigurado pelo fisiologismo. Segundo, por conta do próprio Itamar. Ciclotimico, impulsivo, Itamar não tinha, no entanto, medo do poder - nem do ônus da crise. Achavam-no meio louco, e, talvez por isso mesmo, assumiu.

Muita gente gozava o topete simbólico do presidente e questionava seu estilo tempestuoso ("Sou mercurial", ele mesmo dizia, "vou de zero a 100 graus"). Porém, Itamar foi o melhor presidente da República da recente era democrática. Pegou um país destroçado por anos de ditadura, com uma inflação que nos deixava à beira do colapso, balançado pela desastrosa retirada do primeiro presidente eleito pelo povo em 30 anos, e tratou de agir. Trocou de ministro econômico até acertar. Por fim, instalou Fernando Henrique, a contragosto do próprio FHC, que teve de encampar meio forçadamente a tarefa. Mas, no final, deu conta do recado.

Na gestão de Itamar, começamos a consertar o Estado brasileiro. Primeiro com o controle da inflação, que reuniu a neutralização do seu efeito inercial e uma série de medidas de controle fiscal. Elas prosseguiram com a era das privatizações na gestão de Fernando Henrique, eleito a cavaleiro do sucesso do plano que, na verdade, foi de Itamar.

Com Itamar se obteve o maior ganho econômico e social da era recente da República: o Plano Real. Faltava a promoção social. Fernando Henrique ficou sentado em cima das glórias do passado. Graças a essa inércia, perdeu a eleição para Lula, afinal, e dessa forma ficamos entregues ao que nos colocou nos dias de hoje.
O célebre topete

Michel Temer, o vice de Dilma, não é Itamar. Em vez de assumir o posto, o que a aliança oculta da salvação nacional está fazendo é uma intervenção branca no governo. Na prática, Dilma já não está no controle da máquina pública. Seu ministro econômico, Levy, é um funcionário do Bradesco. Seu plano de ajuste fiscal nada tem a ver com o projeto do PT. É o anti-PT na gestão do próprio PT. E Dilma não pode fazer nada, porque sua alternativa é a degola.

Se ficar no cargo, Dilma está destinada a terminar seu mandato como uma espécie de marionete. Quem seguir até o fim ficará com o ônus do ajuste. Ele tem de ser feito ainda nesta gestão, porque seria desastroso demais esperar três anos por um outro governo.

Serão três anos duros, onde todo o mal terá de ser feito. Para que no final este governo seja imolado, pelo voto direto, e alguém possa recolocar o Brasil de novo numa rota que aponte para o futuro.


quinta-feira, 29 de outubro de 2015

As credenciais para escrever um livro de História

Lá no Skoob, onde qualquer um pode deixar sua opinião sobre um livro, demorou mas já apareceu um leitor dizendo que eu, por ser jornalista, não tenho credenciais para escrever um livro de história, como A Conquista do Brasil. Um tipo de perseguição que já tinha sofrido o Laurentino Gomes, o mais bem sucedido jornalista a publicar livros de história. Um caso isolado, entre outros leitores que reconheceram o valor da obra, mas que merece uma resposta.

A reserva de mercado intelectual não existe. E o leitor comete um homérico engano, primeiro, porque eu não sou jornalista, ou só jornalista. Ser jornalista e ter trabalhado em veículos da grande imprensa pode até chamar mais a atenção no meu currículo. Porém, minha verdadeira formação é de Ciências Sociais. Sou bacharelado pela USP em Sociologia, Antropologia e Política, que completei antes mesmo de me formar na ECA - Escola de Comunicação e Artes, com especialização em Jornalismo.

Essa é a minha formação essencial. Mais do que apenas dar notícia, eu sempre me interessei pelas ideias, que são o que move o mundo. Minha formação como cientista social sempre foi muito importante para entender o que acontece, ter capacidade de análise,  uma visão mais ampla e também mais profunda da sociedade e suas mudanças. Essa base tem sido muito útil ao longo de minha vida, não apenas na carreira jornalística.

Graças a minha formação, creio que pude escrever melhor, incluindo em jornalismo, e no jornalismo que se faz tendo o livro como veículo. Com a antropologia, por exemplo, pude escrever melhor sobre os índios que viviam no Brasil, entender seu relacionamento com os portugueses e muitos aspectos da vida indígena. A leitura de mestres, como os antropólogos franceses Pierre e Helène Clastres, foi essencial para escrever A Conquista do Brasil. Outros intelectuais com quem tomei contato pela primeira vez na faculdade, como Darcy Ribeiro, tiveram igual importância. Minha experiência pessoal entre os Kuikuro, no Xingu, também foi de enorme valor.

Elementos de sociologia e política foram fundamentais para analisar a construção da sociedade pré-colonial do Brasil e do aparelho de Estado. A corrupção, tema dominante no Brasil de hoje, tem suas raízes na própria criação da elite brasileira e sua mentalidade, responsável pela manutenção do Brasil no atraso do qual custamos a nos livrar.

O Jornalismo? A prática de escrever diariamente na imprensa, com a máxima objetividade possível, nos ajuda a redigir com mais clareza, identificar e dar destaque ao que é mais importante. Surpreender o leitor é outra regra de ouro da boa redação. Tenho procurado exercitar tudo isso ao longo de meus trinta anos de carreira como jornalista. Acho que isso não desmerece um autor. Ao contrário, também o credencia.

De certa forma, A Conquista do Brasil é mais uma reportagem com pinceladas de ensaio sociológico do que um livro de História. Ao resgatar os documentos originais de viajantes, jesuítas e mandatários, procurei reaproximar o leitor da realidade daquele tempo. Surgiram novos aspectos da história, esquecidos ou menos lembrados ao longo dos séculos, que ajudam a entender nossas origens e como somos ainda hoje. O livro mostra que o tempo acabou distanciando a história do Brasil de suas fontes originais e criou uma falsa ideia do brasileiro sobre ele mesmo.

Há uma terceira influência no que faço, que é a da literatura. Já faz algum tempo que não publico romances (o último, que saiu pela Objetiva, foi Amor e tempestade, em 2009, e o próximo deve sair no começo do ano que vem). O exercício da ficção também ajuda a escrever melhor: criar o clima, fazer o leitor visualizar a informação, mostrar o contexto de forma rica e envolvente. Tudo isso colabora com a redação de qualquer obra, mesmo a que pretendemos ser objetiva ou científica.

Não sou historiador, nem quero ser. Ninguém tira o valor de quem tem formação acadêmica específica em História. Meu viés realmente é muito mais do cientista social e do jornalista. Creio que são áreas de conhecimento que muitas vezes se sobrepõem, em outras são complementares. Com o meu ponto de vista, procuro  dar uma contribuição nova e diferente ao estudo da história do Brasil, que como toda forma de conhecimento acadêmico é construtiva, baseada no conhecimento anterior, como um edifício do saber. E, por isso mesmo, às vezes tem dificuldade de aceitar revisões.

A gente ouve opiniões as mais contrárias, e tem de respeitar mesmo aqueles que parecem se voltar contra você por alguma razão pessoal, que desconhecemos. Além de procurar desqualificar o livro, o leitor do Skoob adota um certo tom raivoso, que aparece frequentemente em gente que escreve na internet. A tolerância é o bem que mais faz falta nesta era em que todo mundo pode expressar livremente sua opinião de múltiplas formas. Porém, quem escreve deve saber que o outro tem o direito à defesa. É necessário ocupar esse espaço, para que não se disseminem o tratamento desrespeitoso, as ideias falsas e seus propósitos obscuros.


quarta-feira, 28 de outubro de 2015

O livro sobre Vandré e o valor da reportagem



Lá pelos idos da década de 1990, por sugestão de minha mãe, dona Marlene, que encontrou o cantor e compositor Geraldo Vandré alimentando pombos numa praça do centro de São Paulo, escrevi um perfil dele para a revista na qual trabalhava. VIP era então recém separada de Exame, não tinha ainda mulheres seminuas na capa e ele acabou estampando o lugar que os homens nunca mais teriam de novo naquela publicação.

Foi um grande esforço de reportagem, que só levei a cabo pela insistência de dona Marlene, fã apaixonada do artista que marcou sua geração. Durante dois meses, eu cotidianamente passei bilhetes por baixo da porta do apartamento de Vandré, que não tinha telefone, nem mesmo campainha. Até que, um dia, quando eu já estava pronto para desistir, ele me ligou (de um orelhão).

O resultado disso foi talvez a reportagem mais completa que se tenha feito sobre ele, na qual Vandré, num período de lucidez, me mostrou (literalmente, de violão na mão) as músicas que compunha no seu exílio pessoal dentro do Brasil. Explicou seu ponto de vista sobre o período histórico do qual se tornou ícone - a resistência à ditadura nos anos 1960 - e falou da convivência com o próprio mito. Depois disso, ele voltou à tona na imprensa somente uma vez, em uma entrevista à TV Globo, em 2010, na qual falava basicamente as mesmas coisas que já tinha dito a mim, mais de uma década antes.

Há cerca de dois anos, me ligou o jornalista mineiro Jorge Fernando dos Santos, dizendo que escrevia um livro biográfico de Vandré. Foi uma conversa de menos de cinco minutos. Recentemente, saiu o livro: "Vandré, o Homem que Disse Não". Feita sobretudo com recortes do que saiu na imprensa, é um bom apanhado da vida de Vandré, mas não aprofunda nada, nem traz novidades. Passa por isso a impressão de ter apenas explorado o trabalho dos repórteres que conseguiram ter contato com Vandré e a imagem do próprio Vandré.

No livro, há várias referências à reportagem que escrevi. Em certa passagem, Santos diz que eu teria caído em "contradição". Escrevi em dado momento que Vandré "podia ter pensado assim", mas também "podia ter pensado " de outra forma. Coloquei no condicional, porque ninguém tem como garantir que sabe como os outros pensam, ainda mais no caso de Vandré. Eu estava admitindo que não sabia o que ele pensava e aventava duas hipóteses que eram possíveis, ambas. Isso não é "contradição".

Essa palavra incomoda, primeiro porque não é cabível, segundo porque usada sem fundamento parece querer desmerecer ou contaminar a fonte do qual bebe o próprio autor. Se alguém acha que eu caí em contradição, não deveria se apoiar tanto naquele meu trabalho. Há reproduções do meu texto na VIP que ocupam praticamente uma página inteira de livro, incluindo a descrição que fiz do apartamento de Vandré.

Mais preocupante é a falta da reportagem. Alguns brilhantes perfis já foram escritos sem que o perfilado tivesse concordado ou sido entrevistado. É o caso, por exemplo, do célebre perfil de Frank Sinatra assinado por Gay Talese na revista Esquire. Talese passou um bom tempo em Las Vegas, sem conseguir falar com Sinatra, que se recusou a recebê-lo. No entanto, conversou pessoalmente com tanta gente próxima de Sinatra, fez tão boa reportagem, que a entrevista com o próprio se tornou praticamente dispensável.

Este não é o caso de "Vandré, O Homem que Disse Não", escrito dentro do gabinete com material já publicado. É verdade que Vandré é uma figurinha carimbada. Porém, se tivesse falado mais com quem estava em torno, ou aproveitado o que ouviu ao telefone, sem resumir-se ao que leu publicado, talvez Santos pudesse acrescentar algo de novo. Mas não. 

Vale a pena ler o livro? Sim, se você é um fâ de Vandré ou se não sabe nada sobre ele. Pelo sucesso que fez, pela mistificação ao seu redor, pelo seu temperamento enigmático, ele continua sendo um personagem instigante. E o livro é um eficiente clipping de tudo o que saiu sobre ele.

Ao contrário do que o livro de Vandré faz parecer, e do atual quadrante do jornalismo, mais baseado no meio virtual, a reportagem não morreu. A mesma Geração Editorial, que publicou o livro de Vandré, lançou recentemente também "20 mil pedras no caminho",  do jornalista Jorge Tarquini. Focado na trajetória de um viciado em crack, o livro é reportagem pura. Uma história humana, reveladora, e chocante, do começo ao fim, como retrato da realidade.

Minha opinião sobre Vandré? Ele continua sendo um homem de protesto, ainda que isso signifique renegar o seu papel na década de 1960, dizendo que fazia apenas música, e não protesto. Vandré é como diz uma de suas músicas mais conhecidas: gosta mais de confundir que de explicar.

Com a autoridade de quem fez alguns clássicos da música popular brasileira, criados num tempo em que era mais famoso e ganhava mais dinheiro que o Chico Buarque, ele não deixa de ter suas razões para viver na negação. Muitas vezes, olhando o mundo como está, a gente pensa se quer mesmo fazer parte dele. Para esse mundo, como artista, e cidadão, Vandré continua dizendo não.



sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Cunha, Dilma e a oportunidade de uma mudança histórica

A descoberta do dinheiro do presidente da Câmara, Eduardo Cunha, sequestrado pela Justiça brasileira em sua conta já nada secreta na Suíça, é uma boa oportunidade para repensarmos o Brasil.

Não é nenhuma surpresa que um político use o cargo e sua influência no Congresso para trocar favores por dinheiro, primeiro, e depois pela própria sobrevivência. Cunha e seu partido têm tanta moral quanto o PT, cujo comportamento colocou a presidente Dilma Rousseff à beira do impeachment.

A lavagem pública de roupa suja proporcionada pela investigação de todas as partes envolvidas nessa história mostra apenas como a corrupção no Brasil é ampla, geral e irrestrita. É um aviso imperioso de que está na hora de mudar.

A crise por que passa o Brasil não é acaso. Como não é acaso o atraso educacional, político, econômico e social em que nos encontramos. Passam ciclos ilusórios de crescimento e a realidade de novo surge como um soco no nariz. Este Brasil  da crise é que é o verdadeiro.

Nós, brasileiros, nos acostumamos a pensar que o Brasil está atrasado em relação ao chamado Primeiro Mundo porque somos um país jovem, que começou, portanto, depois. Não é verdade. Quando os portugueses começaram a se interessar pelo Brasil, na metade do Século XVI, como mostra A Conquista do Brasil, meu mais recente lançamento (Editora Planeta), a Europa ainda era um continente medieval, em que as pessoas defecavam na rua e viviam sob o terror da Inquisição.

Países hoje considerados avançados como Espanha, Inglaterra e França se perdiam em guerras internas, em um processo ainda de consolidação do poder central, depois da divisão da terra ocorrida na era feudal. Não havia a noção de democracia, de direito civil, muito menos de bem estar social.

Enquanto o Brasil vivia da exploração da cana e se tornava o último país do mundo a abolir a escravidão, a Europa passou por uma verdadeira revolução, emergindo da Idade Média. A Europa moderna que vemos hoje foi construída nos mesmos 500 anos em que se fez o Brasil.  Nesse período, outros países do Novo Mundo, como os Estados Unidos e Canadá, construíram modelos políticos e econômicos muito mais bem sucedidos a partir do zero. E hoje estão muito à frente na escala do desenvolvimento econômico e social.

O que fizemos de errado? O Brasil permaneceu sob o domínio de castas que trazem da origem os mesmos defeitos hoje vistos na nossa classe política. Nasceu como um país de saqueadores, que vinham para cá de olho nas imensas riquezas naturais do território brasileiro, para levar os recursos embora. Hoje, continuamos fazendo a mesma coisa: há uma elite encastelada no poder, que usa seus privilégios para enriquecer e levar o butim para as contas de bancos na Suíça ou comprar sua casa com um pier particular em Miami, sempre à margem da lei. Nada diferente dos primeiros donatários e da burguesia colonial dos quais os empresários e políticos encastelados no poder são hoje herdeiros.

O Brasil foi mantido sob as rédeas de uma elite latifundiária que formou uma aristocracia baseada na rapina. Nós nunca respeitamos a lei no Brasil. Este país sempre foi considerado uma terra a ser explorada para depois ser abandonada, ou continuar sendo sugada, e não um lugar para morar, construir algo, criar os filhos.

O brasileiro nunca respeitou a lei e a coletividade no Brasil . Quer se dar bem, e só. Quando consegue levar o dinheiro embora, mora ricamente no exterior, onde se comporta como um cidadão exemplar. E ainda fica falando mal do país que o gerou. Se o Brasil é uma bagunça, é justamente por conta de tipos assim, que deveriam olhar para o próprio umbigo.

Mesmo quando surge alguém diferente, assume no poder a mesma postura. Em vez de honrar a proposta com a qual se elegeu, o PT desceu ao mesmo nível de seus antecessores. Mostrou que o chamado "trabalhador" brasileiro, quando no poder, também o vandaliza. Uma frustração enorme para o vasto eleitorado que depositou no partido a esperança de algo diferente - e melhor. Porque a mentalidade da elite é um mal que está no ar, se espalha, contamina a sociedade.

O Brasil não vai mudar enquanto não mudar a mentalidade da sua elite, o que inclui a elite política, a empresarial e seus mimetizadores vindos do sindicalismo e dos que blasfemando se intitulam representantes dos "movimentos sociais". Não vamos mudar enquanto a mentalidade do brasileiro for a do saqueador, a do espoliador, que nos acompanha desde o desembarque dos degredados nas praias brasleiras.

O Brasil só vai mudar quando houver espírito público, e entendermos que o que é do Brasil tem de ficar no Brasil. E  aqui é que devemos construir um país de respeito, para que seja respeitado pelos próprios brasileiros. A partir disso, poderemos quem sabe caminhar para o desenvolvimento sustentado, em vez de viver aos trancos e barrancos.

Talvez essa seja uma tarefa para as futuras gerações. A casta de políticos que temos hoje já se comprovou espúria, como as anteriores. É um desapontamento profundo, especialmente para alguém como eu, que, como cidadão e jornalista, batalhou anos a fio pelo restabelecimento do Estado de Direito, pela redemocratização e a criação de uma sociedade mais desenvolvida, justa e equilibrada, e achava que estávamos no bom caminho.

É fundamental a educação para vermos se conseguimos dar mais um passo. Acima de tudo, temos de entender de onde vêm nossas mazelas, esse nosso caráter que nos impede de ir adiante. Somente uma mudança profunda será capaz de erradicar a mentalidade da elite brasileira e fazer com que entendamos que o progresso coletivo é também o sucesso individual, resgatando o espírito público.

Pegar quem rouba com a mão na cumbuca é um bom começo. Punir esses figurões que jogam o Brasil no atraso enquanto se locupletam é uma oportunidade histórica para mudar a página e escrever outra, livre dessas práticas. Sem isso, continuaremos vivendo no atraso. Não podemos passar outros cinco séculos assim.

A importância de São Paulo na Conquista do Brasil

Agora que O Caminho do Brasil está indo para a terceira tiragem, começa também a chegar às mãos dos professores, que têm nessa obra uma instrumento muito importante para a formação dos estudantes. O livro mostra muito bem o DNA das nossas virtudes e defeitos. E compreendê-los é o melhor caminho para melhorar, numa hora em que o Brasil precisa, e muito, melhorar.

O Caminho do Brasil é recomendado sobretudo aos professores de São Paulo. Mostra a importância dos paulistas na formação do Brasil colônia, subestimada na maioria dos livros de História, como a Biografia do Brasil, que praticamente começa pela indústria do açúcar no Nordeste, e dedica somente 14 páginas ao período do nascimento brasileiro.

Capa da segunda impressão
Ao escrever A Conquista do Brasil, eu mesmo fiquei surpreso sobre quanto não sabia a respeito da nossa gênese - e da participação dos paulistas. Desde João Ramalho, misterioso criminoso que se instalou no planalto e criou uma indústria de escravos índios, São Paulo teve importância fundamental na formação do país.

Foi a guerra criada pelos mamelucos de Ramalho contra os índios que terminou no massacre dos tupinambás na baía da Guanabara, com a participação dos portugueses, sob as bençãos dos padres jesuítas.  Os paulistas não apenas ajudaram a fundar o Rio de Janeiro como repartiram suas terras com a Igreja. Estenderam a colônia ao sul, abaixo de Santa Catarina, e depois pelo sertão. Com isso, se instalaria de fato a colônia portuguesa na costa brasileira, ainda além do que comandava o Tratado de Tordesilhas.

Os paulistas foram os primeiros brasileiros de verdade. João Ramalho foi o Adão do Brasil. A partir dos seus múltiplos casamentos com as índias, criou-se uma raça que reunia a ambição dos portugueses ao conhecimento da mata. Era gente feroz, que recebeu a denominação de "mameluco", empregado originalmente aos guerreiros mouros, por quem os portugueses tinham grande admiração. Horrorizavam os jesuítas, por viverem quase como os índios, razão pela qual São Paulo foi fundada longe da vila da Borda do Campo, onde Ramalho era praticamente um rei - uma distância grande o suficiente para se proteger dele, e perto o bastante para recorrer a ele, quando necessário.

Essa figura lendária, que teria seus dias de glória e morreria no ostracismo, é essencial para compreender a origem dos paulistas e do Brasil. Independente, pouco afeito a obedecer a administração central, numa terra que dependeria de aventureiros para sobreviver, seu espírito permaneceu vivo por gerações. E encontrou seu momento certo no final do Século XIX, quando o declínio da economia rural no Nordeste, baseada no trabalho escravo, deu lugar ao trabalho assalariado na plantação de café e no processo seguinte de industrialização que transformaram São Paulo no carro chefe da economia nacional.
Ramalho na versão edulcorada

A guerra, a mutação dos jesuítas, que de catequizadores se transformaram aos poucos em patrocinadores do esforço de guerra, a posição estratégica de São Paulo na marcha para o interior, tudo está em A Conquista do Brasil com grande riqueza de detalhes. Ali se descortina a história  muito próxima da realidade de seus protagonistas, com uma revisão de documentos originais deixados por administradores, jesuítas e viajantes, como o alemão Ulrich Schmitt, que descreveu a Vila de São Paulo como um lugar de "dar medo", ao ali passar, vindo de Assunção no Paraguai pelo caminho conecido como Peabiru.

A Conquista do Brasil é, de fato, uma história de dar medo, com canibais, guerreiros sanguinários, administradores corruptos e padres implacáveis. É também a origem deste país que está aí, e ao terminar o livro deixamos de nos surpreender com o fato de que em muitos aspectos ainda estamos lutando para ser civilizados.

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Martin Amis e jovens autores que merecem ser lidos

Conheci Martin Amis em Machu Picchu, no Peru. Eu tinha 16 anos de idade e viajava de mochila nas costas ao lado de meu pai. Um sujeito com chapéu de vaqueiro nos abordou, enquanto olhávamos o Huayna Picchu, batido pelo vento misterioso da cidade inca. Queria saber que língua falávamos. Achou o português uma língua forte. Disse ser escritor, mas, quando perguntei que livros que tinha escrito, respondeu que nenhum, ainda. Terminava o primeiro. Imaginei que estivesse escrevendo algum romance sobre uma aventura na selva peruana. Não. "Escrevo sobre Londres", explicou. Prometi que iria ler o livro, quando saísse. E, qual não foi minha surpresa, quando anos depois vi seu retrato em Campos de Londres - até hoje, creio, seu livro mais conhecido.
Amis quando era um jovem autor desconhecido


É uma boa história, embora eu não goste muito de Amis como autor. Ele agora disse em entrevista ao El País que não vale a pena ler autores jovens. Que os clássicos sobreviveram à prova do tempo e sua leitura seria, portanto, mais garantida. Claro, se ninguém lesse autores jovens, Amis um dia nunca teria sido lido. Não estaríamos também lendo essa sua entrevista. E não teriam surgido os clássicos. Sua declaração só pode ser entendida como uma provocação. Esse é e continuará sendo o grande desafio de qualquer autor: ser lido pela primeira vez. Ainda mais nos dias de hoje, em que qualquer um pode publicar qualquer coisa na internet. Ser lido, porém, é diferente.

Durante meus três anos como diretor editorial da Saraiva, tive oportunidade de lançar alguns autores inéditos no grande mercado. Certamente esse garimpo deu muito trabalho, excluiu gente que talvez merecesse, mas o resultado para mim deu ainda mais prazer que publicar William Faulkner e outros clássicos. A criação do Prêmio Benvirá de Literatura rendeu bons frutos para a Saraiva e, creio, para o mundo editorial no Brasil. A literatura contemporânea é um retrato dos dias de hoje, do pensamento, do comportamento, e é o que deixará a marca deste tempo. Hoje de novo como autor, eu me sinto mais vivo por fazer parte disso. E por estar também dividindo este tempo com grandes talentos.

Acho que divulgar novos autores é importante para todos, incluindo os autores consagrados. Na cultura, apesar da má vontade de boa parte da crítica brasileira, não há lugar para a mesquinharia. O estímulo ao hábito da leitura é essencial para o mercado editorial, para a educação e a cultura de um país. Autores jovens ajudam a falar com a juventude, que precisa ser trazida para a leitura, essencial para o progresso da educação. Ainda mais em um país tão carente de homens e livros, as duas coisas essenciais para uma nação, como dizia o velho Monteiro Lobato.

Alguns dos jovens autores brasileiros de que mais gosto, lancei pela Saraiva. Outros, li somente por prazer. A rigor, jovens autores para mim são todos aqueles que estão vivos. Porém, há os valores que despontam agora e começam a construir sua carreira, e para os quais vale a pena chamar a atenção. Aqui, ordenados aleatoriamente, seguem meus favoritos. E a razão. 

Daniel Galera: todos os grandes autores são fruto de uma obsessão. A de Galera é o sangue. Ele escreve muito bem. E, dado o seu tema favorito, tem impacto. 


Paula Parisot: Gonzos e Parafusos, seu romance de estreia, é primoroso. Trata de um tema forte, a mulher seviciada na infância, com a leveza de um Machado de Assis. Nem por isso deixa de ter um impacto desconcertante, como sugere o título.



Lucrecia Zappi: certa vez, Lucrecia me contou que tinha escrito um romance em inglês, porque morava em Nova York, e achava que encontraria um editor por lá. Eu lhe disse, por experiência própria, que nenhum editor americano publicaria uma autora argentina-brasileira sem antes ter sido editada em seu país. Levou pouco tempo para ela perceber que eu estava certo. Ela reescreveu o livro, em português, e publicamos no Brasil Onça Preta, um história de fixação sobre o pai perdido que é um fino passeio pela alma feminina. Assim como Parisot, Lucrecia é uma artista no sentido amplo, e também desenha brilhantemente. O livro, com espetaculares ilustrações feitas por ela própria, ficou um primor de edição. Já foi publicado em língua espanhola e começa a fazer carreira internacional. A segunda parte da minha profecia ainda está por se completar - Lucrecia ainda será editada no mercado americano, com seu livro publicado primeiro no Brasil.



Raphael Montes: ele se diz um autor policial, mas a grande qualidade de Raphael é a construção de personagens. Observador atento das pessoas, especialmente no meio em que vive, os jovens de classe média da Copacabana de hoje, Raphael faz o absurdo parecer natural e com isso vai ganhando rápido espaço no reinado do suspense psicológico. Já é publicado em 13 países, incluindo EUA e China, o que faz dele um autor internacional - e agora avança sobre novelas e minisséries. Esse, ninguém segura.



Alessandro Thomé: este ainda pouco conhecido romancista, hoje baseado em Poços de Caldas, é um dos mais brilhantes escritores contemporâneos do Brasil. Lancei seu segundo romance, A casa Iluminada, um daqueles livros que você fecha ao final como se tivesse caído de um trem. Para mim, é o autor que melhor representa os dias de hoje e um tipo de violência muito contemporânea, que parece tão mais banal quanto mais exponencial. Seus livros são tão fortes que nenhum editor ainda aceitou pegar o terceiro, Cão Maior, por receio da reação que ele pode produzir. Thomé assusta, mexe, incomoda, perturba, às vezes enoja, tira certezas, bagunça o coreto. Sem ter sido publicado, o livro já vai virando cult, como a biografia proibida de Roberto Carlos. Realmente, publicar Thomé requer coragem. Mas é a mesma coragem que se pede para enfrentar o mundo como ele é.



Livia Brazil: divertida e ao mesmo tempo comovente, Lívia se destaca entre todos os chick lits que aparecem por aí. Em Queria Tanto, livro que fizemos na Saraiva com o selo Benvirá (e cujo título me orgulho de ter feito), ela já traz sua visão reveladora sobre as mulheres e suas dificuldades de relacionamento. Perfeita para meninas, adolescentes, mulheres eternamente à beira de um ataque de nervos e todo mundo que deseja entender um pouco mais o feminino e suas sutilezas.



Oscar Nakasato: quando liguei para Oscar, e disse que tinha ganho o prêmio Benvirá, ele ficou sem chão. "Mas eu estou no supermercado", balbuciou incrédulo o professor de português da cidade de Apucarana, no Paraná. Quando lhe pedi uma foto de divulgação, mandou-me um registro em que se encontrava sem camisa, num churrasco com amigos. "Era a foto que tinha", explicou. Seu romance, Nihonjin, trabalhado com a delicadeza de um bonsai, e forte como um código samurai, revela a vida interior dos imigrantes japoneses no Brasil. E acabou levando também o prêmio Jabuti de 2012, o que causou revolta na comunidade literária, principalmente entre os medalhões ultrapassados por aquele estreante desajeitado, que tentaram desmerecer o resultado, questionando os jurados e o regulamento. Isso já bastaria para fazer de Oscar um caso único na literatura brasileira. Aguardamos agora seu segundo romance, que, segundo ele, está saindo agora no segundo semestre.




João Batista Melo: poucos romancistas contemporâneos se arriscam numa área que também é central na minha própria obra: a família. João Batista, cineasta e documentarista, faz isso muito bem em Malditas Fronteiras, que eu achei e foi publicado mais tarde, depois que saí da Saraiva.



Benedito Costa Neto: melhor contista contemporâneo brasileiro, de quem lancei na Saraiva um pequeno mas brilhante livro: "Diante do Abismo." Contos são difíceis de escrever. Os dele são pérolas. Meu preferido é "Réquiem para um Vitrúvio Negro", desafiador tanto pelo conteúdo quanto pela forma. 



PS: De volta à vida de autor, agradeço aos mais de 200 mil leitores dos meus livros de ficção e não ficção, que me mantém ainda hoje no trabalho. Muitos me contaram histórias comoventes sobre a importância que livros meus tiveram em sua vida ou em um momento de sua vida. Essa é a maior recompensa que pode ter um jovem autor, como ainda me considero: receber de volta uma resposta amiga pelo grande esforço de compartilhar a experiência humana.