quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Tales Alvarenga e o círculo secreto

Ontem, conversando com uma amiga, relembramos Tales Alvarenga, editor de Veja, falecido em 2006. Reproduzo o que escrevi na época, não apenas para relembrá-lo, como para preservar este arquivo, que já andava meio no limbo dos meus alfarrábios virtuais. E também para recordar alguns princípios do jornalismo, que é sempre bom ter presentes.


Nova York, 08 de Fevereiro de 2006


Às vezes eu tenho a sensação de pertencer a um círculo secreto de samurais, que um dia serviram a um certo senhor feudal, mas depois se espalharam pelo mundo - sendo que alguns deles, como eu, se tornaram um tanto renegados. Apesar do tempo e da distância, ainda dividimos os mesmos códigos, usamos as mesmas armas, falamos a mesma linguagem. Uns empregam seus poderes para o bem, como acredito que eu ainda o faça, outros foram atraídos para o mal. Não importa de que lado se esteja, quando um desses ronins tomba a gente fica sabendo e, mesmo longe, como eu aqui em Nova York, ouve aquela voz tonitruante, que vem dos céus e em inglês: "There will be only one..."

Esse foi o brado que me estremeceu ao saber que morreu na sexta-feira passada Tales Alvarenga, diretor de Veja e Exame, um jornalista com quem convivi muitos anos. Tales era um dos guardadores desse código de fraternidade, que de alguma forma implicava um certo espírito de renúncia, para a dedicação integral a um bem indefinível. Ou apenas definível para quem experimentou virar madrugadas trabalhando na revista Veja, sobretudo em épocas passadas, quando esse esforço chegava ao limite físico, o que nos dava um sentido ainda maior de missão.

Esse código de gente abnegada, que trabalhava à custa da saúde e da vida familiar, proibida de buscar os holofotes, incluía jamais aceitar favores, compactuar com governos, dar as costas para a verdade, em nome da defesa do povo brasileiro. E, por mais pretensioso que pareça, acreditávamos ter esse poder (mesmo separados, ainda acreditamos).

Tales pertenceu a esse grupo de justos, que eu vi no seu esplendor, reunido na década de 1980 dentro de Veja, na redação talvez mais brilhante que a revista já teve em todos os tempos, quando o Brasil ainda lutava pela abertura política e econômica, essencial para o progresso. Era uma outra Veja, alinhada com os interesses do leitor, uma publicação em franco crescimento. O diretor de redação era José Roberto Guzzo; o diretor adjunto, Elio Gaspari; a redatora-chefe, Dorrit Arazim; os editores executivos eram Henrique Caban e Tales Alvarenga, então responsável pela Vejinha, que se tornava o segundo maior sucesso comercial da Abril, logo depois da revista-mãe.

Dos editores, todos assumiriam mais tarde postos de comando dentro da revista, na Editora Abril ou fora dela: Antonio Machado de Barros (economia), Paulo Moreira Leite (Brasil), Fernando Pacheco Jordão (internacional), Eurípedes Alcântara (geral), Mario Sergio Conti (variedades), Paulo Nogueira (Vejinha). Dias Lopes faria história na imprensa ao abrir a revista Gula. E havia grandes repórteres em todo o país, que não cabem neste parágrafo.

Eu começava a carreira e aprendi muito com eles todos, satisfeito de ter a oportunidade, após muito "rolar na lama", como se dizia no jargão de Veja, de entrar para a irmandade. E foi pelas mãos desse grupo que me tornei editor de Brasil, a seção mais importante da revista e uma das mais importantes do jornalismo brasileiro, com apenas 24 anos de idade.

De todo aquele grupo, Tales não era o mais brilhante, mas com certeza tinha qualidades incomparáveis - e a tenacidade lhe daria seu momento. Muitos acusaram-no de ter se tornado arrogante depois de assumir o comando de Veja, em 1997, mas só pode dizer isso quem não o conheceu. Ele não era arrogante, exatamente. Apesar de ter estudado filosofia, Tales se caracterizava por um certo desprezo pelos intelectuais, em quem não via nada construtivo, e pelos que se achavam poderosos em geral. Era um partidário do cidadão comum. Essa era sua maior qualidade: um tipo ostensivo, assumido e um tanto desafiador de humildade.

Graças a essa mentalidade, Tales em geral sabia melhor o que interessava o maior número possível de pessoas. O leitor de Veja podia não conhecê-lo, mas Tales conhecia bem o leitor: era gente como ele. Dava-lhe o que queria ler. Estava em posição de defender seus interesses.

Quando a economia e a política se tornaram mais estáveis, deixando de produzir as notícias sensacionais que levantam as vendas nas bancas, e a revista teve que buscar outros caminhos, esse foi o grande trunfo de Tales para uma nova fase de sucesso em Veja, que perdurou muitos anos. Na época, eu recomeçava a trabalhar na revista como repórter especial, respondendo diretamente ao Tales. Discutimos muitas vezes o que fazer. Eu sustentava que naquele tempo o interesse individual se tornara mais importante que as grandes causas coletivas, visto o sucesso dos livros de auto-ajuda. Era nisso que a revista podia investir.

Tales sabia escutar. E, como autor do plano, mandou-me executá-lo. "Está bem, então você vai fazer", ele disse. Criou uma seção sem nome, uma espécie de segunda Geral, chefiada por mim. Aumentou o número de sucursais para doze, de modo a mostrar mais o Brasil para o brasileiro, e colocou-as todas sob o meu comando. Toque típico de Tales, mandou diminuir os textos, cujo tamanho na opinião dele causava cansaço no leitor comum (ironizava sua própria instrução dizendo que a reportagem ideal era o "pirulito", a notícia de uma coluna).

Assim surgiu uma Veja que colocava em sua capa reportagens sobre problemas conjugais, o poder do cérebro e viagens à Disney, mais enxuta, dinâmica e com mais assuntos. Ao mesmo tempo, não deixava de ser a Veja de sempre, que ainda se destacava pela reportagem de denúncia e investigação.

No início de sua gestão como diretor de redação, foi Tales quem ordenou uma capa sobre quem era o deputado Sérgio Naya, símbolo de um Brasil que literalmente matava a classe média sob os escombros dos prédios que construía: a reportagem foi redigida e fechada por mim, com relatórios da reportagem em Brasília e do Rio de Janeiro. Pouco depois, Veja deu uma entrevista exclusiva com o "maníaco do parque", trabalho brilhante e ousado da equipe da editora executiva Laura Capriglione, que infiltrou uma repórter na cadeia e ouviu a confissão do criminoso. Foi também a equipe de Laura que esperou meses a fio para dar no momento exato, como um grande furo de reportagem, uma descoberta da medicina que revolucionaria a vida de muita gente: o Viagra. Tudo isso consolidou um novo patamar de vendas para Veja e a posição de Tales à frente da revista.

Foi a fase culminante de uma carreira longe das luzes, mas hiperativa. Tales participou ativamente da história do Brasil, desde os tempos da ditadura militar, quando se caracterizou como um especialista em política. Porém, mais que um repórter, era um "fechador": aquele sujeito que põe a notícia trazida pelos repórteres no papel e faz a revista sair.

Em geral, o "fechador" tem menos gosto pelo trabalho da rua, mas é mais pensador. Essa era a arte de Tales, no silêncio de sua sala de vidro, escrevendo como um conspirador. Podia parecer arrogante, com seu jeito de levantar o queixo: mesmo sendo baixinho, produzia a sensação de que olhava para você de cima para baixo. Nesse gesto talvez inconsciente, havia também uma atitude perante o mundo.

Descrente da política e nos homens, desconfiava de tudo, especialmente da índole dos governantes, que se achavam em cima, mas para os quais ele também olhava de cima para baixo. Levava seu ceticismo cortante do jornalismo para as coisas comezinhas da vida e as grandes também. A frase que melhor o definia, como agnóstico e um exasperado com os males que se multiplicavam, era essa: "se Deus existe, ele não interfere".

Como Deus se omitia, pensava Tales, cabia aos jornalistas fazer o melhor possível: lutar pela democracia, vencer a pobreza, destruir os larápios e a corrupção. Era uma missão superior, instituição em Veja. Algo que no círculo dos cavaleiros suplantava até mesmo a importância do patrão, como homem de negócios às vezes mais sujeito a contemporizações. Como todos em Veja, Tales fazia essa distinção: o papel do patrão era um, o do jornalista era outro. E ambos sabiam disso.

Em minhas duas passagens por Veja, nas quais acumulei alguns anos de convivência direta com Tales, como subordinado e depois amigo, ele sempre teve comigo um certo ar paternal, talvez por termos o mesmo nome, com a diferença de um H (provocador, Guzzo nos dizia que eu só tinha essa letra a mais que o Tales - e era uma letra muda). Mesmo assim, não me poupava do pior trabalho nem de certas crueldades que reservava aos seus colaboradores quando eles achavam que sua vida andava fácil - ou pretendia destruir a oposição.

Para mim, mesmo sem motivo, dizia: "mude de nome ou de comportamento". Na reunião de pauta de Veja, na minha hora de expor as ideias para a capa da semana, ironizava os conselhos que ele próprio me pedira ao ser promovido à direção, tornando público algo que dividíramos em território particular: "Vamos agora ouvir o Guaracy, que veio me dizer o que fazer no meu emprego". Passava descomposturas sempre depois de convidar uma testemunha, algo que não o ajudou a se tornar mais popular.

Porém, nada disso o desmerece. A vida em Veja era de muita pressão, o que ajuda a explicar certos exageros de comportamento. Tales não se aborreceria por me ver contando essas coisas. Era a favor sempre de mostrar o "outro lado", parte do código samurai, segundo o qual mesmo dos bons não se pode deixar de mostrar o lado ruim, um princípio da credibilidade defendido a qualquer custo. 

Tales era a favor de não esconder nada, nada mesmo, ainda que às vezes isso parecesse cruel. Certa vez, ele me mandou incluir no texto de uma reportagem o fato de um entrevistado ter me recebido em sua casa pelado, para mostrar o corpo coberto de feridas, resultado de obesidade mórbida, de modo a obter a complacência da revista. Foi o que fiz. Além, é claro, de desfiar os negócios escusos que realizava.

Depois que saí de Veja, de modo a ganhar o tempo necessário para escrever meus romances - um projeto pessoal -, encontrei Tales em várias ocasiões. A última delas, em Campos do Jordão, foi num seminário de intelectuais que se propunham dar soluções para o Brasil. Ele circulava por ali anonimamente, assistindo a tudo, atento. Jantamos juntos: comemos, bebemos, rimos, contamos histórias e ele me explicou que estava ali em busca de elementos na sua incansável campanha para desancar os discursos vazios. 

Tinha espaço privilegiado para fazê-lo, na coluna que mantinha nas duas revistas cuja direção acumulava, as mais influentes do país: a própria Veja e Exame. Por trás do eterno ceticismo, acho que alimentava também ainda a esperança de um mundo um pouco melhor, além dos antigos ideais.

Problemas ainda não muito esclarecidos, decorrentes de dificuldades respiratórias, tiraram a vida de Tales Alvarenga, 61 anos, na sexta-feira, dia 3 de fevereiro de 2006. Talvez ele dissesse, sobre a própria morte, que Deus não interferiu - mais uma vez. Deveria tê-lo feito, para benefício dos amigos a quem subtraiu o seu convívio, e do Brasil, que perdeu um sincero, competente e honesto defensor.

terça-feira, 25 de agosto de 2015

O superestrelado Amor e Tempestade chega à era digital

É estranho celebrar o fim de um casamento, mas o fim de casamentos geralmente abre perspectivas para um futuro mais duradouro. É o caso do meu romance Amor e Tempestade, cujo contrato com a editora Objetiva chegou ao termo, e ganha agora novo começo com a sua publicação inédita em e-book pelo selo Copacabana.

Nos seis anos em que o romance permaneceu na Objetiva, a venda foi excelente, sobretudo considerando-se que se trata de um livro brasileiro de mais de 300 páginas, que custava ao leitor 54 reais: cerca de 6 mil exemplares. Talvez tivesse sido mais, se a editora não estivesse já muito satisfeita com os lucros e, com um pouco mais de ambição, apostasse em mais reimpressões. É um livro com uma legião de fiéis leitores, que lhe deram 80% de aprovação com quatro e cinco estrelas no Skoob.

Durante todo esse tempo, assim como muitas editoras de grande porte, que não estão dando conta do recado do terreno virtual, a Objetiva sequer chegou a  produzir a versão digital da obra, que só agora é lançada no meio virtual. Por essa razão, a versão do livro em inglês chegou primeiro - Love and Tempest já se encontrava desde o ano passado na Amazon, Google Play, I-Tunes, além de Saraiva, Cultura/Kobo etc.

Para mim, é importante ver este romance na galeria das obras que, por meio do veículo digital, não sairão mais das prateleiras. Ele é resultado de um período importante de minha vida, quando morava em Nova York, e de meu trabalho. Eu me propus um ano de dedicação a um livro que, segundo pensava, ninguém mais poderia escrever, pela experiência, o tempo e o esforço de que necessitava. E escrevi.

O romance saiu como imaginei, daquele tipo como já não se faz comumente hoje em dia. É ambicioso, por retratar um período turbulento da História do Brasil. Grande, como pedia uma saga com toques picarescos, em que entram personagens históricos, como Lampião, o padre Cícero, o Marechal Rondon, os 18 do Forte e os integrantes da Coluna Prestes. E intenso, mesclando aventura, ação e romance às questões existenciais, especialmente sobre o significado da família e do heroísmo.

Amor e Tempestade me custou caro, não somente por esvaziar minhas reservas financeiras nesse ano de trabalho solitário na cidade mais cara do mundo, como fisicamente. Escrevi sua parte final literalmente em pé. Depois de meses a fio trabalhando de doze a dezesseis horas por dia ao computador, já não conseguia sequer sentar. Coloquei então o laptop em cima da prateleira de livros e continuei.

Em Nova York, quando escrevia Amor e Tempestade:
já não podia nem sentar
Quando vemos um livro, seja qual for, muita gente não imagina o esforço que há por trás. Muita gente acha idílico o trabalho do escritor, mas na maior parte do tempo ele é impiedoso, sacrificante e mal remunerado. Mas o resultado vale, por seu significado. Um romance de fôlego como esse representa muito, pelo empenho emocional que exige, seu envolvimento afetivo, o tempo que tomou, os valores que contém, suas ideias e mensagens.

Um livro fica bom apenas quando nos entregamos a ele de corpo e alma. Um romance leva tudo da gente, mas ele fica. Em Amor e Tempestade, eu dei realmente tudo de mim, até a última gota, o bagaço, o frangalho.  E agora ele é novamente dos leitores. Por um preço muito melhor que o do livro impresso (9,90). E à distância de uns poucos cliques, incluindo para a coleção dos fiéis leitores que já compraram o livro impresso e fizeram dele um romance superestrelado.

domingo, 23 de agosto de 2015

A era da ignorância

Vejo na internet um vídeo com entrevista da minha agente literária, Luciana Villas Boas, na qual ela afirma que a literatura brasileira perdeu espaço de influência na cultura brasileira. É verdade, mas o que vemos hoje com as redes sociais é um fenômeno ainda mais amplo, em que não apenas a literatura como a leitura - matéria prima para as ideias - perdem seu espaço, numa era em que a informação nunca foi tão farta.

A internet trouxe para o mundo contemporâneo um grande paradoxo. A era da informação, contraditoriamente, é também a era da ignorância. Graças à internet, ficamos sabendo como a civilização ainda é pobre - ontem vi um vídeo, por exemplo, de uma gincana na França em que um concorrente, entre quatro alternativas, cravou que a Terra gira em torno da Lua. Quem tem visto filmes franceses sobre educação sabe que até no país mais culto do mundo ela anda em baixa.

As pessoas se acomodaram - é mais fácil ver um vídeo ou distrair-se com bobagens na internet do que aprender algo construtivo. A mesma facilidade com que se faz compras de supermercado por meia dúzia de cliques faz também com que o ser humano deixe de pensar, tanto quanto de sair de casa. Ambas as coisas são importantes para aprender.

Já ouvi muitos relatos sobre jornalistas que vivem atrás do computador. Não vão para a rua, não fazem reportagens, não conhecem pessoas.  Não têm, portanto, conexões nem experiência de vida. E esse é um capital essencial para quem quer escrever, seja informativa ou literariamente.

Há trinta anos eu escrevo todos os dias e me surpreendo com tantos novos "escritores" surgindo na internet. Fazem vídeos e dão entrevistas como se soubessem tudo sobre escrever, sobre o mercado, sobre a vida. Mesmo assim, quem começou a carreira na imprensa diária, no tempo da máquina de escrever, sabe que escrever é experiência e treino - exceto, talvez, na poesia. E isso falta, e muito, na literatura que surge no meio virtual.

Escritores da era digital tendem a tomar conta do mercado porque são jovens, geralmente não precisam sustentar família e têm mais tempo para fazer seu marketing virtual. Vão ocupando espaço e dando a impressão de que isso é a literatura contemporânea. O mesmo acontece em outras áreas da comunicação. A internet oferece espaço de manifestação para uma série de minorias que fazem muito barulho, porque ocupam espaço nas redes sociais. Com isso, dão a falsa impressão de que são maioria. Ou de que têm razão. Multiplicam-se os donos da verdade de tal maneira que a internet se torna enfadonha.

Lógico que se pode encontrar inteligência na internet, assim como espaços com informação relevante e confiável. Porém, a internet favorece o nivelamento por baixo em larga escala . A mediocridade tende a ganhar ainda mais espaço porque as pessoas até agora não têm dado devida importância ao fato de que informação de qualidade - incluindo  a literatura, que é informação para o desenvolvimento intelectual e emocional - precisa ser um serviço remunerado, como sempre foi. Os internautas em sua maioria ainda preferem o espaço onde está na verdade o lixo da informação, apenas porque ele é gratuito.

Os jornalistas tradicionais não aprenderam direito a fazer uso das novas mídias; ao contrário, são boicotados dentro delas, em movimentos promovidos por neo blogueiros para desacreditar o profissional da informação e ocupar o seu espaço, ou por gente financiada de forma escusa por interesses de outra maneira indefensáveis. Os profissionais precisam aprender a navegar como os neófitos e voltar a transformar a missão de escrever, seja de forma informativa como literária, de uma maneira que isso continue a ser de fato uma profissão, entendida como uma especialidade da qual alguém pode tirar seu ganha-pão.

A redução do hábito da leitura de jornais e livros impressos parece indicar que o terreno livre da internet representará uma nova seleção natural. Existirão os livros e veículos de informação digitais, mas as regras do que é bom não mudaram. Conteúdo de qualidade estimula a leitura e vice-versa. A reentrada dos profissionais no mercado pode ajudar a devolver qualidade à informação e a restabelecer a ordem das coisas: os neo blogueiros é que terão de se esforçar para aprender como esse negócio funciona, e os jabazeiros ficarão expostos, por contraste.

Está mais que na hora de isso começar. 




segunda-feira, 17 de agosto de 2015

A crise não vai esperar

Estive ontem na Paulista, cheia de gente, um espetáculo cívico importante, apesar de parecer produzido demais, com aqueles carros de micareta ao longo de toda a avenida, cada um com um tema diferente. Claro que as minorias que precisam de espetáculo para aparecer estavam lá também, como os militantes de extrema direita com gaitas de fole e pregadores do golpe militar. Um deles, em cima de um caminhão, com farda de Robocop e escudo do Capitão América com as cores do Brasil, bradava contra os comunistas. Todos têm o direito de se manifestar, incluindo a direita caricata. Isso não deve ser confundido com a vontade do povo brasileiro, cuja maioria pacífica e democrata se encontrava lá representada, incluindo aquela que apenas desfrutava seu domingo em casa, comendo uma macarronada e assistindo a tudo pela TV.

A pergunta que fica dos manifestos de ontem, em São Paulo e todas as capitais, é: onde pode levar o movimento das ruas? A crise econômica não é motivo para derrubar um presidente, e sim para que ele reveja seu programa de governo. A corrupção seria motivo para o impeachment, desde que fique provada a participação ativa da presidente, o que ainda não aconteceu.

Claro que a gestão desastrosa, tanto no terreno econômico quanto moral, vai tornando o governo inviável. Dilma agora parece a piloto impotente de um avião desgovernado. Nesse caso, conforme desejo da maioria dos manifestantes, segundo pesquisa realizada na Paulista pelo Datafolha, o que pode acontecer é a renúncia, já que na prática a presidente perdeu a autoridade para governar, paralisando o Executivo. Como aconteceu com Fernando Collor.

Se as denúncias da Lava a Jato não chegarem até ela pessoalmente, dificilmente Dilma sofrerá o processo de impeachment. Ela disse que não vai renunciar, mas andou conversando com o próprio Collor sobre o assunto. O movimento das ruas aumenta a pressão para a renúncia. E na medida em que a governabilidade não se recuperar, com o aumento da crise, do escândalo e dos protestos, pode não restar outra saída.

O PT e Dilma têm um pequeno trunfo. O vice-presidente Michel Temer é de um partido que também sofre com a pecha do fisiologismo. Tirar Dilma e o PT para colocar Temer e o PMDB seria trocar o seis pelo meia dúzia. Ambos os partidos andaram juntos em tudo, inclusive na distribuição do butim federal.

Assim, o Brasil se encontra num impasse cruel: está à mercê da crise econômica, que pede medidas urgentes, um corte drástico nos gastos do governo, o seu desaparelhamento e uma política pró-ativa de reativação da economia. Programas econômicos apresentados pelo Congresso, como uma tentativa de substituir o Executivo, soam como uma iniciativa mais para trazer confusão que resultados.

Uma mulher que já resistiu sob tortura não parece afeita a desistir, mesmo nas piores condições. Isso significa que a crise pode ser longa, duradoura e desastrosa. Porém, a esta altura, a renúncia de Dilma seria um gesto coerente com a situação. Os ganhos nos últimos anos, sobretudo para a classe menos favorecida, de que o PT tanto se orgulha, estão escoando pelo ralo rapidamente. Todos sabem, inclusive Dilma, que o Brasil não pode esperar pelas próximas eleições. O jogo com certeza será definido antes.

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Mais romancista que repórter: meu placar no skoob



Roberto Civita, falecido dono da editora Abril, onde trabalhei muitos anos, certa vez encontrou o banqueiro Armando Conde, do BCN, que lhe disse estar em contato comigo, para que eu pudesse ajudá-lo a escrever seu livro de memórias. E perguntou o qeu Civita achava sobre mim.  "Péssimo jornalista", disse Roberto, com seu ar sempre blasé. "Mas é um grande contador de histórias..."

Fui pesquisar no Skoob meu placar junto aos leitores, para saber como avaliaram meus livros. E verifiquei, agora em números, que de fato sou mais romancista que repórter - os meus romances são mais bem avaliados que os livros de não ficção.

O primeiro da lista é Filhos da Terra, meu primeiro romance, que com 20 avaliações recebeu 5 estrelas de 60% dos leitores. Entre quatro e cinco estrelas, são 80% de aprovação.

No mesmo plano está O Homem que Falava com Deus, com 14 avaliações, que recebeu cinco estrelas de 64% dos leitores. Com 14% de 4 estrelas, o índice vai a 78% de aprovação.

Amor e Tempestade, meu romance mais recente, publicado originalmente pela Objetiva/Suma de Letras, tem 77% de aprovação, mas quase o mesmo número de avaliações de quatro e cinco estrelas (33% e 38%, respectivamente).

Os livros de não ficção não são tão festejados, mas também estão muito bem avaliados. O Sonho Brasileiro, biografia de Rolim Amaro, fundador da TAM, tem 70% de aprovação, entre 4 e 5 estrelas, por 25 avaliadores. A Conquista do Brasil é muito recente e recebeu por enquanto apenas 2 avaliações: uma de quatro e outra de cinco estrelas. Promete.

Se você já leu alguns desses livros, vá ao Skoob e vote! O autor aqui agradece o interesse. Isso nos ajuda a continuar trabalhando. O leitor é que manda! Meu próximo livro, por sinal, será um romance. Assim como Conquista do Brasil, será lançado pela editora Planeta.

http://www.amazon.com/Filhos-Terra-Portuguese-Thales-Guaracy-ebook/dp/B00EDXV2UW/ref=sr_1_2?ie=UTF8&qid=1439582147&sr=8-2&keywords=filhos+da+terra

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

A única razão do impeachment


Discute-se por aí se a crise instaurada no governo Dilma é mais política ou econômica. Simpatizantes do governo (os que restam) alegam perseguição; dizem que se investigaram  esta gestão, e não as anteriores, é porque é do PT - como se apenas um governo "popular", de pobres para pobres, fosse passível de cadeia (ainda que os ricos das empreiteiras tenham sido os primeiros a conhecer o xadrez). E que gestões anteriores, especialmente de Fernando Henrique, foram beneficiadas pela vista grossa da polícia, atribuindo à Justiça um viés partidário.

A realidade é que a crise é econômica, como sempre foram todas as crises no Brasil. A ditadura militar não caiu por motivos ideológicos. Caiu porque o "milagre econômico" desaguou num país altamente endividado, arruinado pela inflação e sem perspectivas. Depois veio a gestão civil e retornamos à democracia, não porque gostamos tanto da democracia, e sim porque a inflação batia em 80% ao mês e ela, a democracia, era a única coisa que não havia sido realmente tentada.

Não foi a polícia que deixou de investigar as contas de Fernando Henrique: foi a imprensa, as entidades civis, o Brasil. O motivo: as coisas estavam indo bem. A inflação tinha sido debelada, o governo se retirava da produção e dos serviços, havia espaço para trabalhar e perspectiva de crescimento. Ninguém tinha interesse em desestabilizar um governo que estava tirando o país do buraco.

O Brasil não investigou o governo Lula, nem na primeira como na segunda gestão, quando já se desenhava bem o cenário da corrupção galopante e do aparelhamento do Estado. O motivo é que as coisas continuavam indo bem: o Brasil finalmente crescia e o povo estava satisfeito porque podia comprar iogurte, geladeira e TV no supermercado.

O brasileiro não se importa tanto com a ética na política; ao menos, tanto quanto se importa com o seu bolso. Se o PT tivesse roubado mais discretamente, em lugar de promover o tsunami que praticamente quebrou o Estado, e o país continuasse em crescimento, ninguém estaria falando em impeachment da presidente. Ocorre que a corrupção, quando não se cortam os braços, estende tentáculos de polvo. E isso contribuiu pesadamente para a crise abrupta e profunda que já está aí.

Além de não ver a importância da ética na política, o problema do Brasil é essa crise, surgida justamente pelo fato de não termos cuidado da ética lá atrás. Ela não será pequena, nem breve. Durante alguns anos, o governo teve a chance de aproveitar seu bom momento para plantar as bases do crescimento sustentado. Um modelo não alimentado somente pela transferência de renda, na forma da taxação da classe média em favor da chamada classe C. Como foi essa política de renda populista da era petista, na forma de um mensalinho para os mais pobres,

Nos dois mandatos de Lula e no primeiro de Dilma, o PT no governo deu dinheiro aos ricos e esmola aos pobres. Manteve a elite e o povo satisfeitos, mas não plantou as bases para o progresso duradouro. Com o esgotamento do modelo, os ricos deixaram de ganhar e vêem a volta atrás como cenário. Os pobres já olham preocupados para a inflação que corrói o pouco que avançaram. E a classe média urbana espoliada já está louca com esse governo há muito tempo. O cenário completo para o apoio incondicional e geral ao impeachment.

Pode-se mudar Dilma de lugar, mas a questão é: mudar para o quê? É tarde, mas as reformas estruturais ainda estão por fazer  A maior delas no momento é o reenquadramento do Estado, seu desinchamento, para que volte a ser operacional. Isso no primeiro instante significa mais crise econômica, pela retirada do Estado como agente alimentador da renda e do mercado.

Com o tempo, porém, o Estado poderá recuperar sua capacidade de investimento, para investir no que realmente lhe cabe, que é a verdadeira promoção social. Em especial, em educação, que realmente dá igualdade de oportunidade para todos e faz alguém mudar de vida, com um novo patamar de renda. Somente com a qualificação o cidadão dá o salto desejado na sua vida.

Educação é um processo de longo prazo, capaz de levar um país a outro estágio de desenvolvimento. O trabalhador qualificado, o empresário bem formado e o cientista e pesquisador são os elementos que colocam um país no primeiro mundo, e não um governo demagogo, corrupto e perdulário.

Com a qualificação, o valor agregado do produto aumenta, a produção também, e por conseguinte a renda cresce. Perdemos doze anos nessa direção. Levaremos outros doze se começarmos agora.

O Brasil é um país imediatista, que não planeja e vive de sucessos a curto prazo. Por isso, está destinado a viver em ciclos de progresso alternado com grandes abismos. Um planejamento de quinze anos, que deveria ser seguido em linhas gerais mesmo com a troca de governo, como acontece em países como a Alemanha, é essencial para qualquer partido que deseja fazer uma plataforma eficaz de governo com vistas ao progresso para o país. E para isso deve funcionar por regras transparentes, porque a corrupção não somente esgota os recursos do governo, como mina a confiança do empresário, do investidor e do cidadão, instaurando as leis da máfia como regra.

Esse planejamento deve ser da economia, da infra-estrutura, dos transportes, das comunicações, da tecnologia, do meio ambiente, da educação. Só com um trabalho coerente de cada área e de seu conjunto ao longo do tempo se pode fazer um Brasil à altura do que queremos. Sem os espasmos que parecem ameaçar a única coisa de bom que realmente fizemos nas últimas décadas: a democracia, capaz de dar ao povo o poder de depurar a política, mudar e melhorar um país.



sexta-feira, 7 de agosto de 2015

A influência do índio no Brasil - de hoje

Um antigo companheiro da revista Veja, amigo de longa data, assiste à minha entrevista ao Jô Soares, e manda pelo Facebook uma pergunta com aquela pimentinha típica: "Só não entendi essa história de 'como o índio entrou no brasileiro'. "

E a resposta está na sua própria pergunta.

Realmente nós, brasileiros, temos uma enorme dificuldade de comprender como a sociedade brasileira incorporou o índio. Para nós, o povo massacrado pelos portugueses no Século XVI é uma coisa do passado, e hoje se resume àquela gente que sobrou, circunscrita aos recônditos da Amazônia ou ao Parque Nacional do Xingu, a célebre reserva indígena criada pelos irmãos Villas-Boas. Nada portanto a ver conosco.

O fato, porém, é que ó índio está no nosso DNA, como bem mostra A Conquista do Brasil, onde está claro o esforço não só para exterminar o índio como apagar os vestígios de sua influência. Apesar do empenho do colonizador imperialista e sanguinário em exterminar aquela gente insubmissa, o índio não contribuiu apenas com os nomes de lugares, ruas e cidades por todo o país. Sua cultura e seu comportamento estão arraigados na sociedade brasileira. De uma forma tão profunda que nem chegamos a perceber, porque já é quase impossível dissociá-la da nossa personalidade como Nação.

Como mostra a malícia da pergunta do amigo, o  brasileiro gosta de fazer pouco das coisas, de desvalorizá-las, de falar mal dos outros. Isso chega a extremos. Quando morre alguém conhecido, ou há alguma crise, no instante seguinte o brasileiro está fazendo piada. Esse é um comportamento típico do índio brasileiro. Não respeitamos nem gente que morre em desastre aéreo.

Assim como o índio, o brasileiro não gosta de autoridade. Nas sociedades indígenas, incluindo aquelas que os portugueses encontraram no Brasil ao desembarcar, o chefe é um servidor da comunidade e na realidade tinha pouco poder. Para os índios, o chefe servia para lhes dar presentes. E nem por isso lhes deviam servidão ou sequer reconhecimento. Uma atitude muito típica do brasileiro, que quer que o governo proveja tudo, mas está sempre pouco disposto a colaborar.


Os índios eram uma sociedade de subsistência, que viviam na abundância e não viam sentido em acumular riqueza nem planejar  o futuro. O brasileiro não planeja o futuro. Isso tem consequências em todos os planos. O brasileiro quer comprar uma geladeira e uma TV de última geração assim que recebe um dinheiro, mas não guarda recursos para a aposentadoria, como fazem outros povos, dos Estados Unidos ao Japão. De maneira geral, o brasileiro é consumista e imediatista.  Junta para o dia. Há algo do índio aí.

O índio não tem responsabilidade com as coisas. Faz coisas graves como se não tivessem efeito. Pode matar um ser humano e em seguida sair dando risada, como testemunha muita gente, incluindo os próprios irmãos Villas-Boas, no seu livro A Marcha para o Oeste. Assim como o índio, o brasileiro é inconsequente. Estes dias em que nos deparamos com os bilhões roubados da Petrobras e de outros estamentos da administração federal, nos perguntamos como alguém pode ser inconsequente a ponto de achar que ninguém descobriria uma roubalheira desse tamanho, maior que o PIB de muitos países, capaz de levar estatais à bancarrota e à falência de toda a administração pública. É nossa mentalidade silvícola na gestão pública.

A corrupção não é um problema do governo, é da sociedade que a permite. Ela se instala de forma generalizada e custa a deixar o nosso dia a dia porque está enraizada. Contagia a todos, do alto escalão da administração federal ao fiscal de rua. No setor privado, desce do capitão de indústria, que concorda em pagar propina para obter preferência na obra pública, até o cidadão que ultrapassa o outro na fila, trafega pelo acostamento para evitar o engarrafamento ou tenta dar o célebre "jeitinho", sempre alguma forma de se livrar dos pequenos regulamentos que põe ordem ao dia a dia.

Isso é resultado da porção silvícola em nossas veias, em nosso comportamento, em nossa sociedade. Gostamos de ver o lado bom da nossa porção indígena, que ajudou o brasileiro a ser um povo alegre, que enfrenta as dificuldades com certa leveza, que não se preocupa tanto e consegue ser mais flexível e tolerante com regras e pessoas. Porém, não gostamos de olhar para o lado negativo desse mesmo comportamento, que nos leva a ser uma sociedade desorganizada, propensa à corrupção, à falta de planejamento e que gosta de criticar a si mesma sem se corrigir de fato.

A melhor maneira de melhorar é entendermos a nós mesmos, sem receio de olhar para  nossas mazelas. Ao fazer um mergulho no passado, A Conquista do Brasil propicia também o exercício de psicanálise de uma Nação, trazendo do berço seus traumas e características. Somente essa terapia pode nos ajudar a entender cada um que cria o país adulto de hoje e trabalhar de forma coerente para melhorá-lo.



A Conquistado Brasil: entrevista a Jô Soares

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