segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

A longa história de um breve romance




Em dezembro de 2009, fui conhecer a então nova Livraria da Vila do Shopping Cidade Jardim, em São Paulo, e fiquei extasiado diante daquelas prateleiras cobertas de livros e, no centro, o auditório envidraçado que parecia flutuar entre as estantes, obra do arquiteto Isay Weinfeld.

– Ah! – exclamei, ao lado do proprietário da loja, Samuel Seibel. – Dá vontade até de escrever um livro aqui dentro!

Samuel olhou para mim, divertido, e provocou:

– Por quê não?

Surgiu então a ideia do “Escritor na Livraria”. Samuel reservou para mim uma mesa, colocada ao lado do auditório, no amplo mezanino da loja; eu passaria ali um mês, numa espécie de reality show. Escreveria um livro ali e meu computador estaria conectado a outra tela, voltada para o lado contrário, para as pessoas que circulavam pela loja verem o que eu estava escrevendo, em tempo real.

Escrever é por definição um trabalho solitário, e gostei da ideia não apenas por fazer algo diferente, como pelo fato de que o processo de trabalho poderia contribuir para o livro que eu vinha justamente imaginando. Na época, eu andava sob o efeito da leitura de Kafka, e de uma frase, que acreditava ter lido em algum lugar, talvez Kierkegaarde, certamente Kierkegaarde, segundo a qual a felicidade depende da incerteza. Claro, imagine se todo mundo soubesse como irá morrer: a condição para ser feliz é não saber.

Tinha de ser um livro curto, de impacto, um desafio para mim, autor de livros de fôlego; com aquela estranheza kafkiana; e com o tema da incerteza, que ganharia força pelo método: eu permitiria que as pessoas pudessem ler e interferir durante o trabalho, de maneira que eu mesmo não saberia qual o rumo que a história tomaria. No final da tarde, o resultado do trabalho do dia seria pulicado em um blog, no qual os frequentadores da loja poderiam continuar acompanhando diariamente o andamento da história.

Quando me instalei na livraria, eu sabia apenas duas coisas: o título, provisório (“Ensaio sobre a incerteza”), e uma frase inicial (“Você quer mesmo saber?”). O título cairia ao longo do trabalho, mas a primeira frase persistiu. Eu começava 11 horas da manhã e encerrava o trabalho por volta das 18:00, num expediente normal de trabalho, incluindo sábados. A pessoas passavam, primeiro, desconfiadas; aos poucos ganhavam coragem e vinham falar comigo, para entender o que estava acontecendo. Com o tempo, passavam a participar e colaborar de verdade. Assim, fiquei sabendo que o nome que havia escolhido para a cigana não podia ser aquele; troquei-o para Rosa, que, conforme fiquei sabendo, é um nome cigano. Surgiram jornalistas, para gravar entrevistas, fotografar e escrever sobre o evento; eles também liam o que eu escrevia, interferiam e escreviam sobre o que mudava na história.

Lembro especialmente de uma mulher, que sentou-se à minha frente e me contou longamente sua história. Tinha nascido numa cidade ribeirinha do Amazonas, uma vila de pescadores, distante da civilização. Certa vez, quando tinha nove aos de idade, ciganos passaram por ali; uma cigana velha a tinha visto, lera sua mão e dissera que ela ainda seria muito rica e viveria na capital. Para quem habitava a floresta selvagem, aquilo parecia absurdo. Na adolescência, ela visitou Manaus para realizar um sonho de criança: conhecer o teatro Amazonas. Lá, encantou um rico médico carioca com quem rapidamente se casaria; foi morar no Rio, teve filhos e há quarenta anos vivia dentro de uma família feliz. Um conto de fadas. “Eu acredito em ciganas”, ela me disse, antes de ir embora.

O curso da obra ganharia outra interferência importante, que mudaria o rumo da história. Naquela época, o noticiário começava a repercutir as denúncias sobre Roger Abdelmassih, o dono de uma célebre clínica de fertilização em São Paulo, acusado de assediar brutalmente suas pacientes. Um médico inspirado em Abdelmassih (o doutor Perez, ou o “Monstro”, como as vítimas de Abdelmassih o chamavam) foi incorporado ao romance; o jogo entre marido e mulher ganhou novo elemento de impacto e o Dr. Jekyll contemporâneo se tornou personagem pivotante.

No mês em que passei na livraria, conheci seus funcionários, que gostavam muito do que faziam; era bom conversar com eles sobre música, livros e arte em geral; passeava pelo shopping de carrinho de golfe com Papai Noel, de quem me tornei amigo; assisti um filme erótico estrelado por Paolla de Oliveira, sozinho na sala de cinema; uma tempestade de verão apagara a luz do bairro e não pude trabalhar – o Cidade Jardim tinha gerador e, além dos elevadores, o cinema era a única coisa que funcionava no Shopping. Encerrei o trabalho no dia 24, véspera de Natal, como planejara, deixando o livro incompleto – para escrever em casa o trecho final, que as pessoas só poderiam ler quando o livro fosse publicado em papel.

Eu estava satisfeito. E cansado: não é fácil se concentrar para escrever com tanta gente em volta interrompendo, embora eu, como jornalista treinado a escrever em redações com mais de uma centena de pessoas, e romancista trabalhando em casa com um filho pequeno, soubesse lidar com a perturbação razoavelmente bem. O evento foi um sucesso: promoveu a nova loja e cheguei a ser convidado para repetir a proeza numa livraria em Lisboa, a convite do Sapo – o maior portal da internet no país, que queria transmitir a redação do livro em tempo real com uma câmara “24 horas”. Agradeci, mas recusei: repetir o feito, ainda mais longe da família, por trinta dias, seria demais para mim. Além disso, tinha um emprego à minha frente.

Como as surpresas do destino do qual trata, o Linha da Vida ficaria parado no estágio em que encerrei o trabalho na livraria, por um longo tempo. Em novembro de 2009, eu também recebi um convite para ser o diretor editorial da Saraiva, a maior rede de livrarias e uma das maiores editoras do Brasil; em janeiro, ao assumir o cargo, com a responsabilidade de desenvolver as publicações de ficção e não ficção da editora, deixei o romance dormindo em seu berço virtual. E só agora, novamente fora da vida corporativa, pude concluí-lo.

Revi o texto, que se manteve fiel aos propósitos originais: o tema, o tamanho, a busca pelo impacto. Mudou um pouco, contudo, a direção; criado ao sabor dos acontecimentos, ganhou mais foco quando percebi, afinal, porque havia me interessado pelo tema e pela história.

Está concluído Linha da Vida, um breve romance com uma longa história: resta agradecer a todos os que com ele colaboraram, incluindo o Destino.

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Pensamentos


Tudo é bom, tudo passa.
*
Para quem não tem nada a fazer, reclamar é uma ocupação.
*
Primeiro acaba o compromisso, depois o interesse, por fim a educação.
*

Quem não julga os outros jamais se equivoca com as pessoas.
*
Contra o fato há mil argumentos.
*
Cada um merece a consideração que dá.
*
Há os males do bem.
*
Não há a lei. Há apenas a interpretação da lei.
*
A Justiça é um conceito absoluto, um ideal a ser perseguido. O justo não é aquele que busca a aplicação da lei; eventualmente ele precisa mais do que isto, terá de tentar estabelecer a justiça, orientado pela lei, ou dentro do que a lei permite. Há que se buscar a verdade.
*
Já jornalistas que buscam o fato. O melhor jornalista é o que busca a verdade.
*
Quem tem formação humanística sempre decide melhor. Mesmo quando erra, erra bem.
*
O julgamento mais importante é o do espelho no banheiro.
*
A história é a engenharia do tempo.
*
A memória, arquivo vivo, é material. Tudo o que é material muda. Só as ideias permanecem as mesmas.
*
A incerteza persegue o homem como sua sombra.
*
Até quando não têm amor, todas as histórias são de amor.